Noturno do Chile
Roberto Bolano
Tradução
Eduardo Brandão
Para
Carolina López e Lautaro Bolano
Tire
a peruca.
Chesterton
Agora
estou morrendo, mas ainda tenho muita coisa para dizer. Estava em paz comigo
mesmo. Mudo e em paz. Mas de repente surgiram as coisas. Aquele jovem
envelhecido é o culpado. Eu estava em paz. Agora não estou em paz. É preciso
esclarecer alguns pontos. Por isso, vou me apoiar no cotovelo e levantar a
cabeça, minha nobre e trêmula cabeça, e buscarei no cantinho das reminiscências
aqueles atos que me justificam e, portanto, desdizem as infâmias que o jovem
envelhecido espalhou para meu descrédito numa só noite relampejante. Meu
suposto descrédito. É preciso ser responsável. Eu disse isso a vida inteira.
Você tem a obrigação moral de ser responsável por seus atos e também por suas
palavras, inclusive por seus silêncios, sim, por seus silêncios, porque os
silêncios também ascendem ao céu e Deus os ouve, e só Deus os compreende e os
julga, de modo que muito cuidado com os silêncios. Sou responsável por tudo.
Meus silêncios são imaculados. É bom que fique claro. Mas acima de tudo que
fique claro a Deus. O resto é prescindível. Deus não. Não sei do que estou
falando. Às vezes me surpreendo apoiado no cotovelo. Divago, sonho e procuro
estar em paz comigo mesmo. Mas às vezes até meu próprio nome eu esqueço. Eu me
chamo Sebastián Urrutia Lacroix. Sou chileno. Meus ancestrais, por parte de
pai, eram originários das Vascongadas, ou País Basco, ou Euskadi, como se diz
hoje em dia. Por parte de mãe provenho das doces terras de França, de uma
aldeia cujo nome em espanhol significa "Homem em Terra" ou
"Homem a Pé", meu francês, nestas horas extremas, já não é tão bom
quanto antes. Mas ainda tenho forças para recordar e para responder às ofensas
desse jovem envelhecido que de repente chegou à porta da minha casa e, sem
nenhuma provocação, sem nenhum motivo, insultou-me. Que isso fique claro. Eu
não procuro confronto, nunca procurei, procuro a paz, a responsabilidade dos
atos, das palavras e dos silêncios. Sou um homem sensato. Aos treze anos senti
o chamamento de Deus e quis entrar para o seminário. Meu pai se opôs. Não com
excessiva determinação, mas se opôs. Ainda me lembro da sua sombra deslizando
pelos cômodos da nossa casa, como se fosse a sombra de uma doninha ou de uma
enguia. E me lembro, não sei como mas o fato é que me lembro, do meu sorriso na
escuridão, o sorriso do menino que fui. E me lembro de um tapete que
representava uma cena de caça. E de um prato de metal em que se representava
uma ceia com todos os ornamentos que a ocasião requer. E de meu sorriso, e de
meus tremores. Um ano depois, aos catorze de idade, entrei para o seminário, e,
quando saí, passado muito tempo, minha mãe me beijou a mão e me tratou de
padre, ou julguei entender que me chamava de padre, e ante meu espanto e meus
protestos (não me chame de pai, mãe, sou seu filho, disse, ou talvez não tenha
dito seu filho mas o filho) ela se pôs a chorar, e pensei então, ou talvez só
pense agora, que a vida é uma sucessão de equívocos que nos conduzem à verdade
final, a única verdade. Pouco antes ou pouco depois, isto é, dias antes de ser
ordenado sacerdote ou dias depois de tornar os santos votos, conheci Farewell,
o célebre Farewell, não lembro com exatidão onde, provavelmente na casa dele,
fui à casa dele, mas também é possível que tenha peregrinado ao seu escritório
no jornal, ou pode ser que o tenha visto pela primeira vez no clube de que ele
era sócio, numa tarde melancólica como tantas tardes de abril em Santiago,
muito embora em meu espírito cantassem os passarinhos e florescessem os brotos,
como diz o clássico, e lá estava Farewell, alto, um metro e oitenta, se bem que
a mim parecia ter dois metros, vestindo um terno cinza de bom tecido inglês,
sapatos feitos à mão, gravata de seda, camisa branca impoluta como minha
própria ilusão, abotoaduras de ouro, e um alfinete em que distingui símbolos
que não quis interpretar mas cujo significado não me escapou, em absoluto, e
Farewell me fez sentar ao lado dele, bem perto, ou talvez antes tenha me levado
à sua biblioteca ou à biblioteca do clube e, enquanto espiávamos as lombadas
dos livros, começou a pigarrear, e é possível que, enquanto pigarreava, olhasse
para mim de esguelha, mas não posso garantir, porque eu não tirava os olhos dos
livros, e então disse uma coisa que não entendi ou que minha memória já
esqueceu, depois tornamos a nos sentar, ele numa poltrona, eu numa cadeira, e
falamos dos livros cujas lombadas acabávamos de ver e acariciar, meus dedos
frescos de jovem recém-saído do seminário, os dedos de Farewell, grossos e já
um tanto deformados como cabia a um ancião tão alto, e falamos dos livros e dos
autores desses livros, e a voz de Farewell era como a voz de uma grande ave de
rapina, que sobrevoa rios, montanhas, vales, desfiladeiros, sempre com a expressão
justa, a frase que caia como uma luva em seu pensamento. E quando eu lhe disse,
com a ingenuidade de um passarinho, que desejava ser crítico literário, que
desejava seguir a vereda aberta por ele, que não havia nada na terra que satisfizesse
mais meus anseios do que ler e exprimir em voz alta, com boa prosa do resultado
das minhas leituras, ah,quando lhe disse isso, Farewell sorriu, pôs a mão no
meu ombro (mão que pesava tanto quanto se estivesse ornada de um guante de
ferro, ou mais ainda), procurou meus olhos e disse que a vereda não era fácil.
Neste país de.bárbaros, disse, esse mar não é de rosas. Neste país de proprietários rurais, disse, a
literatura é uma raridade, e não tem mérito o saber ler. Como eu, por timidez não
respondesse nada, perguntou, aproximando seu rosto do meu, se alguma coisa
havia me incomodado ou ofendido. O senhor ou seu pai por acaso são
proprietários rurais? Não, respondi. Pois eu sim, disse Farewell, tenho uma
fazenda perto de Chillán, com uma pequena vinha que não dá maus vinhos. Ato
contínuo, convidou-me para passar o fim de semana seguinte na sua fazenda, que
tinha o nome de um dos livros de Huysmans, não lembro mais qual, talvez A rebours ou La-bas,
pode ser até que fosse L´oblat, minha memória já não é o que era,
creio que era Là-bas, e seu vinho também tinha esse nome, e, depois de
me convidar, Farewell ficou calado, mas seus olhos azuis permaneceram fixos nos
meus, também fiquei calado e não pude sustentar o olhar escrutador de Farewell,
baixei os olhos humildemente, como um passarinho ferido, e imaginei essa fazenda,
onde a literatura era, sim, um mar de rosas, onde o saber ler não era coisa sem
mérito e onde o gosto prevalecia sobre as necessidades e obrigações práticas,
depois ergui o olhar, e meus olhos de seminarista se encontraram com os olhos
de falcão de Farewell, e assenti várias vezes, disse que iria, que era uma
honra passar um fim de semana na fazenda do maior crítico literário do Chile.
Quando chegou o dia marcado, tudo na minha alma era confusão e incerteza, eu
não sabia que roupa vestir, se batina ou traje secular, se me decidia pelo
traje secular, não sabia qual escolher, se me decidia pela batina,
assaltavam-me dúvidas sobre como ia ser recebido. Também não sabia que livros
levar para ler no trem de ida e no de volta, talvez uma História da Itália para
a viagem de ida, talvez a Antologia da poesia chilena, de Farewell, para
a viagem de volta. Ou talvez o contrário. Também não sabia que escritores
(porque Farewell sempre convidava escritores à sua fazenda) ia encontrar em
Là-Bas, talvez o poeta Uribarrena, autor de esplêndidos sonetos de preocupação
religiosa, talvez Montoya Eyzaguirre, fino estilista de prosas breves, talvez Baldomero
Lizamendi Errázuriz, historiador consagrado e corpulento. Os três eram amigos
de Farewell. Mas, na realidade, Farewell tinha tantos amigos e inimigos que era
inútil eu me perder em conjecturas a esse respeito. Quando chegou o dia
marcado, parti da estação com a alma compungida e ao mesmo tempo pronto para
qualquer agrura que Deus houvesse por bem me infligir. Como se fosse hoje
(melhor do que se fosse hoje), lembro-me do campo chileno e das vacas chilenas,
com suas manchas pretas (ou brancas, depende), pastando ao longo da via férrea.
Por momentos o sacolejo do trem conseguia me adormecer. Fechava os olhos.
Fechava-os como agora os fecho. Mas de repente tornava a abri-los, e lá estava
a paisagem, variada, rica, por momentos alentadora e por momentos melancólica.
Quando o trem chegou a Chillán, peguei um táxi que me deixou num vilarejo
chamado Querquén. Em algo como a praça principal (não me atrevo a chamá-la
praça de Armas) de Querquén, vazia de qualquer indício de gente. Paguei o
taxista, desci com minha maleta, vi o panorama que me rodeava, e, quando já me
virava outra vez com a intenção de perguntar alguma coisa ao taxista ou entrar
de novo no táxi e empreender o retorno apressado a Chillán e depois a Santiago,
o carro se afastou subitamente, como se aquela solidão que tinha algo de
agourenta houvesse despertado medos atávicos no motorista. Por um instante
também tive medo. Triste figura devia eu compor em pé naquele desamparo, com
minha maleta do seminário e com a Antologia de Farewell na mão. De um
arvoredo uns pássaros alçaram vôo. Pareciam piar o nome desse vilarejo perdido,
Querquén, mas também pareciam dizer quem, quem, quem. Apressei-me a
rezar uma oração e me encaminhei para um banco de madeira, a fim de compor uma
figura mais conforme ao que eu era ou ao que naquela época julgava ser. Virgem
Maria, não desampares teu servo, murmurei, enquanto os pássaros pretos de uns
vinte e cinco centímetros de altura diziam quem, quem, quem, Virgem de
Lourdes, não desampares teu pobre clérigo, murmurei, enquanto outros pássaros,
marrons, ou antes, amarronzados, com o peito branco, de uns dez centímetros de
altura, piavam mais baixinho, quem, quem, quem, Virgem das Dores, Virgem
da Lucidez, Virgem da Poesia, não deixes à intempérie teu servo, murmurei,
enquanto uns passarinhos minúsculos, de cores magenta, preto, fúcsia, amarelo e
azul, ululavam quem, quem, quem, ao mesmo tempo que um vento frio se
erguia subitamente gelando-me até os ossos. Então, no fundo da rua de terra, vi
uma .espécie de tílburi ou cabriolé ou charrete puxada por dois cavalos, um
baio, outro pintado, que vinha para onde eu estava e se recortava contra o
horizonte com uma estampa que não pude deixar de definir como demolidora, como
se aquela carroça fosse buscar alguém para levar ao inferno. Quando estava a
poucos metros de mim, o cocheiro, um camponês que apesar do frio só vestia
camisa e um colete, perguntou-me se eu era o sr. Urrutia Lacroix. Pronunciou mal não só meu segundo sobrenome
mas também o primeiro. Disse que sim, que era a mim que ele procurava. Então o
camponês desceu sem dizer palavra, pôs minha maleta na parte traseira da
charrete e me convidou para subir a seu lado. Desconfiado e tiritando por conta
do vento gelado que descia das encostas andinas, perguntei-lhe se
vinha da fazenda do sr. Farewell. Não venho de lá, disse o camponês. Não vem de
Là-Bas?, perguntei, castanholando os dentes. Venho de lá, sim, mas não conheço
esse senhor, respondeu a alma de Deus. Compreendi então o que devia ter sido
óbvio. Farewell era o pseudônimo do nosso crítico. Tentei lembrar seu nome.
Sabia que o primeiro sobrenome era González, mas não lembrava o segundo, e por
um instante me debati entre dizer que era um convidado do sr. González, assim,
sem maiores explicações, ou calar. Optei por calar. Encostei-me na boléia e
fechei os olhos. O camponês perguntou se eu estava passando mal. Ouvi sua voz,
não mais alta que um sussurro logo levado pelo vento, e nesse mesmo instante
consegui lembrar o segundo sobrenome de Farewell: Lamarca. Sou um convidado do
sr. González Lamarca, exalei num suspiro de alívio. O patrão está à sua espera,
disse o camponês. Quando deixamos para trás Querquén e seus pássaros, senti como
que um triunfo. Em Là-Bas, Farewell me esperava com um jovem poeta cujo nome eu
não sabia. Ambos estavam no living, embora chamar de living aquela sala fosse
um pecado, mais parecia uma biblioteca e um pavilhão de caça, com muitas
estantes repletas de enciclopédias, dicionários e souvenirs que Farewell havia
comprado em suas viagens à Europa e ao Norte da África, além de pelo menos uma
dúzia de cabeças empalhadas, entre elas as de um par de pumas que o próprio pai
de Farewell tinha caçado. Falavam, como era de supor, de poesia, e, embora
tenham suspendido o diálogo quando cheguei, não tardaram, assim que fui
instalado num quarto do andar de cima, em retomá-lo. Lembro que, embora tivesse
vontade de participar, como amavelmente fui convidado a fazer, optei pelo
silêncio. Além de me interessar pela crítica, também escrevia poemas, e intuí
que me meter na alegre e buliçosa discussão entre Farewell e o jovem poeta
seria como navegar em águas procelosas. Lembro que tomamos conhaque e lembro que
em algum momento, enquanto corria os olhos pelos alfarrábios da biblioteca de
Farewell, senti-me profundamente infeliz. De tempos em tempos Farewell ria com
sonoridade excessiva. Cada vez que rebentava numa dessas risadas, eu olhava
para ele com o rabo do olho. Parecia o deus Pã, ou Baco em sua toca, ou algum
demente conquistador espanhol enquistado no seu fortim do Sul. O jovem bardo,
ao contrário, tinha um riso magro como arame e, como arame, nervoso, e seu riso
sempre ia atrás do grande riso de Farewell, como uma libélula atrás de uma
cobra. A certa altura Farewell anunciou que esperávamos convidados para jantar
naquela noite. Inclinei a cabeça e apurei os ouvidos, mas nosso anfitrião quis
reservar a surpresa. Mais tarde saí para dar uma volta nos jardins da fazenda. Acho
que me perdi. Sentia frio. Para lá do jardim se estendia o campo, a natureza
selvagem, as sombras das árvores, que pareciam me chamar. A umidade era
insuportável. Descobri uma cabana, ou talvez fosse um galpão, por uma de cujas
janelas se distinguia uma luz. Aproximei-me. Ouvi risos de homens e os
protestos de uma mulher. A porta da cabana estava entreaberta. Ouvi o latido de
um cachorro. Bati e, sem esperar resposta, entrei na cabana. Em volta da mesa
vi três homens, três peões de Farewell, e junto de um fogão a lenha havia duas
mulheres, uma velha e a outra moça, que, ao me verem, aproximaram-se de mim e
tomaram minhas mãos em suas mãos ásperas. Que bom que veio, padre, disse a mais
velha, ajoelhando diante de mim e levando minha mão aos lábios. Senti medo e
nojo, mas a deixei fazê-lo. Os homens tinham levantado. Sente-se, padre, disse
um deles. Só então me dei conta, com um estremecimento, de que ainda vestia a
batina com que havia feito a viagem. Na minha confusão estava certo de tê-la
tirado quando subi ao quarto que Farewell tinha destinado a mim. Mas o fato é
que só pensei em me trocar, não me troquei, desci logo para me reunir de novo
com Farewell no pavilhão de caça. Também pensei, ali, no galpão dos camponeses,
que não ia dar tempo para trocar de roupa antes do jantar. E pensei que
Farewell ia ter uma impressão equivocada de mim. Pensei que o jovem poeta que o
acompanhava também ia ter uma imagem equivocada. Finalmente pensei nos
convidados-surpresa, que decerto eram gente de importância, e vi a mim mesmo,
com a batina coberta do pó da estrada, da fuligem do trem, do pólen das trilhas
que levam a Là-Bas, intimidado, jantando num canto retirado da mesa, sem me
atrever a erguer os olhos. Então tornei a ouvir a voz de um dos camponeses, que
me convidava a sentar. Como um sonâmbulo, sentei-me. E ouvi a voz de uma das
mulheres, que dizia padre, tome isto, ou padre, tome aquilo. E alguém falou de
uma criança doente, mas com tal dicção que não entendi se a criança estava
doente ou já tinha morrido. Para que precisavam de mim? A criança estava
morrendo? Chamassem um médico. A criança já tinha morrido fazia tempo? Rezassem
então uma novena à Virgem. Roçassem seu túmulo. Tirassem o mato que cresce em
toda parte. Tivessem-na presente em suas orações. Meu Deus, eu não podia estar
em toda parte. Não podia. Foi batizada?, ouvi-me perguntar. Sim, padre. Ah.
Tudo certo, então. Quer um pouco de pão, padre? Vou provar, disse eu. Puseram
diante de mim uma lasca de pão. Duro como o pão dos camponeses, assado em forno
de barro. Levei um pedaço aos lábios. Pareceu-me então enxergar o jovem
envelhecido no vão da porta. Mas eram só os nervos. Estávamos em fins da década
de 50, e ele então devia ter somente uns cinco anos, talvez seis, e estava
longe do terror, da invectiva, da perseguição. Gostou do pão, padre?, perguntou
um dos camponeses. Umedeci o pão com saliva. Bom, disse eu, muito gostoso,
muito saboroso, agradável ao paladar, manjar ambrosiano, deleitável fruto da
pátria, bom sustento dos nossos esforçados homens do campo, ótimo, ótimo. É
verdade que o pão não era ruim, e eu precisava comer, precisava ter algo no
estômago, de modo que agradeci aos camponeses a oferenda, depois levantei, fiz
um sinal-da-cruz no ar, que Deus abençoe esta casa, disse, e fui embora
apressado. Ao sair, voltei a ouvir o latido do cachorro e um tremular de
folhagens, como se um bicho se escondesse no mato e dali seus olhos seguissem
meus passos erráticos em busca da casa de Farewell, que não demorei a ver,
iluminada como um transatlântico na noite austral. Com um decidido gesto de
valentia optei por não me despojar da batina. Fiquei um tempo fazendo hora no
pavilhão de caça, folheando alguns incunábulos. Numa parede se amontoava o
melhor e o mais conceituado da poesia e da narrativa chilena, cada livro
dedicado pelo autor a Farewell com frases engenhosas, amáveis, carinhosas,
cúmplices. Disse comigo mesmo que meu anfitrião era sem dúvida o estuário onde
se refugiavam, por períodos curtos ou longos, todas as embarcações literárias
da pátria, das frágeis lanchas aos grandes cargueiros, dos odoríficos barcos
pesqueiros aos extravagantes encouraçados. Não era à toa que, um segundo antes,
sua casa tinha me parecido um transatlântico! Na realidade, disse comigo mesmo,
a casa de Farewell era um porto. Pouco depois ouvi um ruído sutil, como se
alguém se arrastasse pelo terraço. Mordido pela curiosidade, abri uma das
portas-janelas e saí. O ar estava cada vez mais frio, e não havia ninguém ali,
mas no jardim distingui uma sombra alongada como um esquife dirigindo-se para
uma espécie de caramanchão, uma brincadeira grega que Farewell tinha mandado
fazer junto de uma estranha estátua eqüestre, pequena, de uns quarenta
centímetros de altura, de bronze, que em cima de um pedestal de pórfiro parecia
sair eternamente do caramanchão. No céu vazio de nuvens, a lua se destacava com
nitidez. O vento fazia minha batina esvoaçar. Aproximei-me com decisão do lugar
onde a sombra tinha se escondido. Junto da fantasia eqüestre de Farewell, eu o
vi. Estava de costas para mim. Usava um casaco de veludo, um cachecol, na
cabeça um chapéu de aba curta jogado para trás, e murmurava profundamente umas
palavras que não podiam estar sendo dirigidas a ninguém, a não ser à lua.
Fiquei como o reflexo da estátua, com a pata esquerda meio levantada. Era Neruda?
Não sei o que mais aconteceu. Lá estava Neruda, alguns metros atrás estava eu,
e, entre os dois, a noite, a lua, a estátua eqüestre, as plantas, as madeiras
do Chile, a escura dignidade da pátria. Uma história como essa, garanto que o jovem
envelhecido não tem para contar. Ele não conheceu Neruda. Não conheceu nenhum
grande escritor da nossa república em condições tão essenciais como a que acabo
de recordar. Que importava o que aconteceu antes e o que aconteceu depois. Lá
estava Neruda, recitando versos para a lua, para os elementos da terra e para
os astros, cuja natureza desconhecemos mas intuímos. Lá estava eu, tremendo de
frio dentro da minha batina, que naquele momento me pareceu de um tamanho muito
maior que o meu, uma catedral onde eu morava nu e de olhos abertos. Lá estava
Neruda, segredando palavras cujo sentido me escapava mas com cuja
essencialidade comunguei desde o primeiro instante. E lá estava eu, com
lágrimas nos olhos, um pobre clérigo perdido nas vastidões da pátria, desfrutando
gulosamente as palavras do nosso mais excelso poeta. E agora me pergunto,
apoiado no cotovelo, terá o jovem envelhecido vivido uma cena como essa?
Seriamente me pergunto: terá vivido alguma vez na vida uma cena como essa? Li
os livros dele. Às escondidas e com luvas de pelica, mas li. E não há neles
nada de comparável. Errância sim, brigas de rua, mortes horríveis no beco, a
dose de sexo que os tempos reclamam, obscenidades e ousadias, algum crepúsculo
no Japão, não na nossa terra, inferno e caos, inferno e caos, inferno e caos.
Minha pobre memória. Minha pobre fama. Em seguida foi o jantar. Não vou
lembrá-lo. Neruda e sua mulher. Farewell e o jovem poeta. Eu. Perguntas. Por
que uso batina? Um sorriso meu. Altivo. Não tive tempo de trocar de roupa. Neruda
recita um poema. Farewell e ele recordam um verso particularmente difícil de
Góngora. O jovem poeta é nerudiano, claro. Neruda recita outro poema. O jantar
é delicioso. Salada à chilena, pedaços de caça acompanhados de um molho beamês,
côngrio, que Farewell mandou vir do litoral, ao forno. Vinho de colheita
própria. Elogios. Na conversa depois do jantar, que se prolonga até altas horas
da noite, Farewell e a mulher de Neruda põem discos numa vitrola verde que faz
as delícias do poeta. Tangos. Uma voz infame vai desfiando histórias infames.
De repente, talvez por causa da franca ingestão de álcool, eu me senti mal.
Lembro que saí ao terraço e procurei a lua, que pouco antes havia sido a
confidente do nosso poeta. Apoiei-me num enorme vaso de gerânios e contive a
náusea. Percebi uns passos às minhas costas. Virei-me. A figura homérica de
Farewell me observava com as mãos na cintura. Perguntou-me se me sentia mal.
Disse-lhe que não, que era só um mal-estar passageiro que o ar puro do campo se
encarregaria de evaporar. Embora estivesse numa zona de sombras, soube que
Farewell havia sorrido. Em surdina chegaram até mim uns acordes de tango e uma
voz melíflua que se queixava cantando. Farewell perguntou o que eu achara de
Neruda. Que posso dizer?, respondi, é o maior. Por um instante ambos
permanecemos em silêncio. Depois Farewell deu dois passos em minha direção, e
vi surgir sua cara de velho deus grego desvelada pela lua. Corei violentamente.
A mão de Farewell pousou durante um segundo na minha cintura. Ele me falou da
noite dos poetas italianos, a noite de Iacopone da Todi. A noite dos
Disciplinantes. O senhor leu? Gaguejei. Disse que no seminário tinha lido de
passagem Giacomino da Verona e Pietro da Bescapé, e também Bonvesin de Ia Riva.
Então a mão de Farewell se contorceu como uma minhoca partida em dois pelo
arado e se retirou da minha cintura, mas o sorriso não se retirou do seu rosto.
E Sordello?, perguntou. Que Sordello? O trovador, disse Farewell, Sordel ou
Sordello. Não, disse eu. Olhe a lua, disse Farewell. Dei uma olhada. Não, assim
não, disse Farewell. Vire-se e olhe para ela. Virei-me. Ouvi Farewell murmurar
às minhas costas: Sordello, que Sordello?, o que bebeu com Ricardo de San
Bonifácio em Verona e com Ezzelino da Romano em Treviso, que Sordello? (e então
a mão de Farewell voltou a pressionar minha cintura!), o que cavalgou com Ramón
Berenguer e com Carlos I de Anjou, Sordello, que não teve medo, não teve medo,
não teve medo. Lembro que naquele momento tive consciência do meu medo, embora
tenha preferido continuar olhando para a lua. Não era a mão de Farewell, a qual
tinha se acomodado no meu quadril, que me provocava espanto. Não era sua mão,
não era a noite, onde a lua cintilava mais veloz que o vento que descia das
montanhas, não era a música da vitrola, que derramava um depois do outro tangos
infames, não era a voz de Neruda, da sua mulher e do seu dileto discípulo, e
sim outra coisa, mas que coisa, Virgem do Carmo?, perguntei-me nesse momento.
Sordello, que Sordello?, repetiu zombeteira a voz de Farewell às minhas costas,
o Sordello cantado por Dante, o Sordello cantado por Pound, o Sordello do Ensenhamens
d'onor, o Sordello do planh quando da morte de Blacatz, e então a
mão de Farewell desceu do meu quadril para a minha nádega, e um zéfiro de
rufiães provençais entrou no terraço e fez minha batina negra esvoaçar, e eu
pensei: O segundo, ai!, passou. Olhe que depois vem o terceiro. E pensei: Eu
estava em pé na areia do mar. E vi surgir do mar uma Besta. E pensei: Então
veio um dos sete Anjos que levavam as sete taças e falou comigo. E pensei:
Porque seus pecados se amontoaram até o céu e Deus lembrou suas iniqüidades. E
só então ouvi a voz de Neruda, que estava atrás de Farewell como Farewell
estava atrás de mim. E nosso poeta perguntou a Farewell de que Sordello
falávamos e de que Blacatz, e Farewell se virou para Neruda, e eu me virei para
Farewell e só vi suas costas carregadas do peso de duas bibliotecas, talvez
três, depois ouvi a voz de Farewell, que dizia Sordello, que Sordello?, e a de Neruda,
que dizia é exatamente o que eu quero saber, e a de Farewell, que dizia você
não sabe, Pablo?, e a de Neruda, que dizia não, imbecil, não sei, e a de
Farewell, que ria e olhava para mim, um olhar cúmplice e fresco, como se me
dissesse seja poeta, se é isso o que o senhor quer, mas escreva crítica
literária e leia, fuce, leia, fuce, e a de Neruda, que dizia vai me dizer ou
não vai?, e a de Farewell, que enumerava uns versos da Divina comédia, e
a de Neruda, que recitava outros versos da Divina comédia, os quais, no
entanto, não tinham nada a ver com Sordello, e Blacatz?, um convite ao
canibalismo, o coração de Blacatz, que todos deveríamos degustar, depois Neruda
e Farewell se abraçaram e recitaram em dueto uns versos de Rubén Darío,
enquanto o jovem nerudiano e eu afirmávamos que Neruda era nosso melhor poeta e
Farewell nosso melhor crítico literário, e os brindes se duplicavam de novo e
de novo. Sordello, que Sordello?, Sordel, Sordello, que Sordello? O fim de
semana todo essa musiquinha me acompanhou aonde quer que eu fosse, leve e
vivificante, alada e curiosa. A primeira noite em Là-Bas dormi como um anjo. A
segunda noite li até tarde uma História da literatura italiana dos séculos XIII,
XIV e XV. Domingo de manhã apareceram dois carros com mais convidados.
Todos conheciam Neruda, Farewell e até o jovem nerudiano, menos a mim, de modo
que aproveitei esse momento de efusões alheias para me perder com um livro no
bosque que se erguia à esquerda da casa principal da fazenda. Do outro lado,
mas sem sair dos limites do bosque, de uma espécie de elevação, avistavam-se os
vinhedos de Farewell, seus pousios, e suas terras onde crescia o trigo ou a
cevada numa trilha que caracolava entre os pastos, distingui dois camponeses,
com chapéus de palha, que se perderam debaixo de uns salgueiros. Para lá dos
salgueiros havia árvores de grande porte que pareciam furar o céu azul-celeste
sem nuvens. Ainda mais além se destacavam as grandes montanhas. Rezei um
padre-nosso. Fechei os olhos. Mais não podia pedir. Ou talvez o rumor de um
rio. O canto da água pura nas pedras. Quando refiz o caminho através do bosque,
ainda ressoava em meus ouvidos Sordel, Sordello, que Sordello?, mas algo dentro
do bosque turvava a evocação musical e entusiasta. Saí pelo lado errado. Não
estava em frente à casa principal, mas diante de uma horta que parecia
esquecida por Deus. Ouvi sem surpresa o latido de uns cachorros que não
enxerguei e, ao cruzar a horta onde, debaixo da sombra protetora de uns
abacateiros, era cultivado todo tipo de legumes e verduras dignas de um
Arcimboldo, distingui um menino e uma menina que, como Adão e Eva, brincavam
nus ao longo de um sulco na terra. O menino olhou para mim: um rosário de
catarros pendia do nariz até o peito. Afastei rapidamente o olhar, mas não pude
banir um nojo imenso. Senti-me cair no vazio, um vazio intestinal, um vazio
feito de estômagos e entranhas. Quando por fim pude controlar a náusea, o
menino e a menina tinham desaparecido. Depois cheguei a uma espécie de
galinheiro. Apesar de o sol ainda estar alto, vi todas as galinhas dormindo em
seus poleiros sujos. Voltei a ouvir o latido dos cachorros e o barulho de um
corpo mais ou menos volumoso que se introduzia à força na ramagem. Atribuí-o ao
vento. Mais adiante havia uma cocheira e um chiqueiro. Contornei-os. Do outro
lado se erguia uma araucária. Que fazia ali uma árvore tão majestosa e bela? A
graça de Deus a colocou aqui, disse comigo mesmo. Apoiei-me na araucária e
respirei. Fiquei assim um bom momento, até que ouvi vozes muito distantes. Avancei
seguro de que eram as vozes de Farewell, Neruda e seus amigos procurando por
mim. Cruzei um canal por onde se arrastava uma água barrenta. Vi urtigas e todo
tipo de ervas daninhas, e vi pedras postas aparentemente ao ditado do acaso mas
cujo traçado correspondia a uma vontade humana. Quem teria disposto aquelas
pedras daquele jeito?, perguntei-me. Imaginei um menino vestindo um suéter
puído, feito de lã de ovelha, grande demais para ele, movendo-se pensativo na
imensa solidão que precede os anoiteceres do campo. Imaginei um rato. Imaginei
um javali. Imaginei um abutre morto num pequeno vale onde ninguém havia pisado.
A certeza dessa solidão absoluta continuou imaculada. Além do canal, pendurada
em barbantes amarrados de árvore em árvore, vi roupa recém-lavada que o vento
mexia, espargindo em volta um aroma de sabão barato. Afastei os lençóis e as
camisas, e o que vi, a uns trinta metros de distância, foram duas mulheres e
três homens, em pé num semicírculo imperfeito, com as mãos tapando o rosto. Era
o que faziam. Parecia impossível, mas era o que faziam. Cobriam o rosto! Embora
aquele gesto tenha durado pouco e, ao me ver, três deles tenham se posto a
andar em minha direção, a visão (e tudo o que ela trazia consigo), apesar da
sua brevidade, conseguiu alterar meu equilíbrio mental e físico, o feliz
equilíbrio que minutos antes a contemplação da natureza havia me proporcionado.
Lembro que recuei. Embaracei-me num lençol. Dei um par de tapas, e teria caído
de costas se um dos camponeses não houvesse me agarrado pelo pulso. Ensaiei uma
expressão perplexa de agradecimento. Isso é o que guardo na memória. Meu
sorriso tímido, meus dentes tímidos, minha voz quebrando o silêncio do campo
para agradecer. As duas mulheres me perguntaram se estava passando mal. Está se
sentindo bem, padre?, disseram. E eu me maravilhei por ser reconhecido, pois as
duas únicas camponesas que tinha visto foram as do primeiro dia, e estas não
eram aquelas. Tampouco usava a batina. Mas as notícias voam, e essas mulheres,
que não trabalhavam em Là-Bas mas numa fazenda vizinha, sabiam da minha
presença, e era até possível que tivessem vindo à fazenda de Farewell na
expectativa de uma missa, coisa que Farewell teria podido promover sem maiores
inconvenientes, pois a fazenda contava com uma capela, mas nem lhe passou pela
cabeça, claro, em grande medida porque o convidado de honra era Neruda, que se
gabava de ser ateu (do que duvido), e porque o pretexto do fim de semana era
literário e não religioso, com o que eu concordava plenamente. Mas o fato é que
essas mulheres tinham caminhado pelos pastos e pelas trilhas minúsculas e
contornado os campos semeados para me ver. E ali estava eu. Elas vieram a mim,
e eu as vi. E que foi que vi? Olheiras. Lábios gretados. Pômulos brilhantes.
Uma paciência que não me pareceu resignação cristã. Uma paciência como que
vinda de outras latitudes. Uma paciência que não era chilena, embora aquelas
mulheres fossem chilenas. Uma paciência que não tinha sido gerada no nosso país
nem na América, que nem sequer era uma paciência européia, nem asiática, nem
africana (se bem que praticamente desconheço estas duas últimas culturas). Uma
paciência como que vinda do espaço exterior. E essa paciência esteve a ponto de
encher minha paciência. E as palavras delas, seus murmúrios, estenderam-se pelo
campo, pelas árvores movidas pelo vento, pelo mato ralo movido pelo vento,
pelos frutos da terra movidos pelo vento. E eu me sentia cada vez mais
impaciente, pois me esperavam na casa principal e talvez alguém, Farewell ou
outro, estivesse se perguntando as razões da minha já prolongada ausência. As
mulheres só sorriam ou adotavam gestos de severidade ou fingida surpresa, seus
rostos antes inexpressivos iam do mistério à iluminação, contraíam-se em interrogações
mudas ou se expandiam em exclamações sem palavras, enquanto os dois homens, que
tinham ficado para trás, começavam a ir-se, mas não em linha reta, não rumando
para as montanhas, e sim em ziguezague, falando, apontando de vez em quando
para indiscerníveis pontos da campina, como se também neles a natureza ativasse
observações singulares dignas de ser expressas em voz alta. E o homem que havia
acompanhado as mulheres ao meu encontro, aquele cuja mão tinha me agarrado pelo
pulso, permaneceu sem se mover, distante uns quatro metros das mulheres e de
mim, mas virou a cabeça e seguiu com o olhar o rumo dos seus companheiros, como
se de repente lhe interessasse sobremaneira aquilo que os outros faziam ou
viam, aguçando o olhar para não perder um só detalhe. Lembro-me de tê-lo
encarado. Lembro que bebi seu rosto até a última gota, tentando elucidar o
caráter, a psicologia de um indivíduo como aquele. A única coisa que dele fica
na minha memória, no entanto, é a lembrança da sua feiúra. Era feio e tinha o
pescoço extremamente curto. Na realidade, todos eram feios. As camponesas eram
feias, e suas palavras, incoerentes. O camponês parado era feio, e sua
imobilidade, incoerente. Os camponeses que se afastavam eram feios, e sua
singradura em ziguezague, incoerente. Deus que me perdoe e que os perdoe. Almas
perdidas no deserto. Dei-lhes as costas e fui embora. Sorri para eles, disse
alguma coisa, perguntei-lhes como se chegava à casa principal de Là-Bas e fui
embora. Uma das mulheres quis me acompanhar. Recusei. A mulher insistiu, eu
comboio o senhor, seu padre, disse, e o verbo comboiar dito por tais
lábios provocou em mim uma hilaridade que percorreu todo o meu corpo. Você me
combóia, filha?, perguntei. Eu mesma, disse ela. Ou: eu merma. Ou algo que o
vento de fins da década de 50 ainda impele pelos intermináveis recônditos de
uma memória que não é a minha. Em todo caso estremeci de rir, tive calafrios de
rir. Não é preciso, disse eu. Já chega, disse. Basta por hoje, disse. E dei as
costas para eles e fui embora com energia, a bom passo, movendo os braços e com
um sorriso que, mal transpus a fronteira da roupa estendida, transformou-se em
franca risada, assim como o passo se transformou num trote com uma leve
reminiscência marcial. No jardim de Là-Bas, junto de uma pérgula de madeira
nobre, os convidados de Farewell ouviam Neruda recitar. Em silêncio, pus-me ao
lado do seu jovem discípulo, que fumava com ar displicente e concentradíssimo,
enquanto as palavras do ilustríssimo raspavam as variadas crostas da terra ou
se elevavam até as travessas lavradas da pérgula e além dela, até as nuvens
baudelairianas, que percorriam uma a uma os límpidos céus da pátria. Às seis da
tarde parti daquela minha primeira visita a Là-Bas. O automóvel de um dos
convidados de Farewell me levou até Chillán, bem a tempo de pegar o trem que me
retornou a Santiago. Meu batismo no mundo das letras estava encerrado. Quantas
imagens muitas vezes contraditórias se instalaram nas noites posteriores,
durante as reflexões e as insônias! Muitas vezes eu via a silhueta de Farewell,
escura e corpulenta, recortada na moldura de uma porta muito grande. Tinha as
mãos nos bolsos e parecia observar detidamente a passagem do tempo. Também via
Farewell sentado numa poltrona do seu clube, com as pernas cruzadas, falando da
imortalidade literária. Ah, a imortalidade literária. Outras vezes discernia um
grupo de figuras cingidas pela cintura, como se dançassem a conga, mover-se por
um salão cujas paredes estavam repletas de quadros. Dance, padre, dizia alguém
que eu não via. Não posso, respondia, os votos não permitem. Eu tinha um
caderninho numa das mãos e com a outra escrevia um esboço de resenha literária.
O livro se chamava A passagem do tempo. A passagem do tempo, a passagem
do tempo, o estalido dos anos, o despenhadeiro das ilusões, a quebrada mortal
dos afãs de todo tipo menos dos afãs da sobrevivência. A serpente sincopada da
conga se aproximava indefectivelmente do meu canto, mexendo e levantando em
uníssono primeiro a perna esquerda, depois a direita, depois a esquerda, depois
a direita, e então eu distinguia Farewell entre os que dançavam, Farewell, com
as mãos na cintura de uma senhora da melhor sociedade chilena daqueles anos,
uma senhora de sobrenome basco que infelizmente esqueci, enquanto na cintura
dele se viam as mãos de um ancião- cujo corpo estava a ponto de desmoronar, um
velho mais morto que vivo que, no entanto, sorria a torto e a direito e parecia
se deleitar mais que ninguém com a conga. Outras vezes voltavam as imagens da
minha infância e adolescência, e eu via a sombra do meu pai se esgueirando
pelos corredores da casa como se fosse uma doninha ou um furão, ou mais
apropriadamente, uma enguia encerrada num recipiente pouco adequado. Toda
conversa, todo diálogo, dizia uma voz, está proibido. As vezes eu me
interrogava sobre a natureza dessa voz. Seria a voz de um anjo? Seria a voz do
meu anjo da guarda? Seria a voz de um demônio? Não demorei muito a descobrir
que era minha própria voz, a voz do meu superego que me guiava o sonho como um
piloto de nervos de aço, era o supereu que guiava um caminhão-frigorífico no
meio de uma estrada em chamas, enquanto o id gemia e falava numa língua que
parecia miceniano. Meu ego, claro, dormia. Dormia e trabalhava. Naquela época
comecei a trabalhar na Universidade Católica. Naquela época comecei a publicar
meus primeiros poemas e, depois, minhas primeiras criticas de livros, minhas
notas sobre a vida literária de Santiago. Apóio-me num cotovelo, estico o
pescoço e recordo. Enrique Lihn, o mais brilhante da sua geração, Giacone,
Uribe Arce, Jorge Teillier, Efraín Barquero, Delia Domínguez, Carlos de Rokha,
a juventude dourada. Todos ou quase todos sob a influência de Neruda, salvo uns
poucos que caíram sob a influência, ou antes, o magistério de Nicanor Parra.
Lembro-me também de Rosamel del Valle. Conheci-o, claro. Fiz críticas de todos
eles: de Rosamel, de Díaz Casanueva, de Braulio Arenas e dos seus companheiros
de La Mandrágora, de Teillier e dos jovens poetas que vinham do Sul chuvoso,
dos narradores dos 50, de Donoso, de Edwards, de Lafourcade. Todos boas
pessoas, todos escritores esplêndidos. De Gonzalo Rojas, de Anguita. Fiz
críticas de Manuel Rojas e falei de Juan Emar, de Maria Luisa Bombal, de Marta
Brunet. Assinei estudos e exegeses sobre a obra de Blest Gana e Augusto
d'Halmar e Salvador Reyes. E tomei a decisão, ou talvez tenha decidido antes,
provavelmente antes, tudo nesta hora é vago e confuso, de que devia adotar um
pseudônimo para meus trabalhos críticos e manter meu nome verdadeiro para a
produção poética. Então adotei o nome de H. Ibacache. Pouco a pouco H. Ibacache
foi ficando mais conhecido que Se-bastián Urrutia Lacroix, para minha surpresa
e também satisfação, pois Urrutia Lacroix planejava uma obra poética para o
futuro, uma obra de ambição canônica que ia se cristalizar unicamente com o
passar dos anos, numa métrica que ninguém mais praticava no Chile, que estou
dizendo, que nunca ninguém havia praticado no Chile, enquanto Ibacache lia e
explicava em voz alta suas leituras, como antes Farewell tinha feito, num
esforço elucidativo da nossa literatura, num esforço racional, num esforço
civilizatório, num esforço de tom comedido e conciliador, como um humilde farol
na costa da morte. E essa pureza, essa pureza revestida do tom menor de
Ibacache mas nem por isso menos admirável, pois Ibacache era sem dúvida, nas
entrelinhas ou observado em seu conjunto, um exercício vivo de despojamento e
de racionalidade, isto é, de valor cívico, seria capaz de iluminar com uma
força muito maior do que qualquer outro estratagema a obra de Urrutia Lacroix,
que era gerada verso a verso, na diamantina pureza do seu duplo. Falando em
pureza, ou a propósito da pureza, uma tarde, na casa de don Salvador Reyes, com
outros cinco ou seis convidados, entre os quais Farewell, don Salvador disse
que um dos homens mais puros que havia conhecido na Europa fora o escritor
alemão Ernst Jünger. E Farewell, que seguramente conhecia a história mas queria
que eu a ouvisse da boca de don Salvador, pediu-lhe que explicasse como tinha
conhecido Jünger e em que circunstâncias, e don Salvador sentou numa poltrona
com franjas douradas e disse que aquilo acontecera muito tempo antes, em Paris,
durante a Segunda Guerra Mundial, quando ele estava lotado na embaixada
chilena. Falou então de uma festa, não sei agora se na embaixada chilena ou na
alemã ou na italiana, e falou de uma mulher muito bonita que lhe perguntou se
queria ser apresentado ao notável escritor alemão. Don Salvador, que, naquela
época, calculo tivesse menos de cinqüenta anos' isto é, era muito mais moço e
vigoroso do que sou agora, respondeu que sim, que adoraria, apresente-me já,
Giovanna, e a italiana, a duquesa ou condessa italiana que gostava tanto do
nosso escritor e diplomata, guiou-o através de vários salões, cada salão se
abria para outro salão, como rosas místicas, e no último salão havia um grupo
de oficiais da Wehrmacht e vários civis, o centro de atenção de toda essa gente
era o capitão Jünger, herói da Primeira Guerra Mundial, autor de Na
tempestade do aço, Jogos africanos, Nos rochedos de mármore e Heliópolis,
e, depois de ouvir alguns axiomas do grande escritor alemão, a princesa
italiana procedeu à apresentação do escritor ao diplomata chileno, e eles
trocaram idéias em francês, claro, depois Jünger, num impulso de cordialidade,
perguntou ao nosso escritor se' era possível encontrar alguma obra dele em
francês, ao que o chileno respondeu pronta e velozmente de forma afirmativa,
claro, havia um livro dele traduzido em francês, se Jünger desejasse ler, teria
muito prazer em oferecê-lo, ao que Jünger respondeu com um sorriso de
satisfação, e ambos trocaram cartões de visita e marcaram uma data para jantar
juntos, ou almoçar, ou tomar o café-da-manhã, porque Jünger tinha uma agenda
lotada de compromissos irrecusáveis, além dos imprevistos que surgiam todo dia
e transtornavam de modo irremediável qualquer compromisso previamente
adquirido, pelo menos marcaram em princípio uma data para uma once [1]
chilena, disse don Salvador, para que Jünger soubesse o que era bom, ora,
para que Jünger não imaginasse que aqui ainda andávamos vestidos de penas,
depois don Salvador se despediu de Jünger e se foi com a condessa ou duquesa ou
princesa italiana, atravessando outra vez os salões intercomunicantes como a
rosa mística, que abre suas pétalas para uma rosa mística, que abre suas
pétalas para outra rosa mística, e assim até o fim dos tempos, falando, em
italiano, de Dante e das mulheres de Dante, mas no caso, quer dizer, quanto à
substância da conversa, daria no mesmo se tivessem falado de D'Annunzio e das
suas putas. Dias depois don Salvador se encontrou com Jünger na mansarda de um
pintor guatemalteco que não pudera sair de Paris depois da ocupação e don
Salvador visitava esporadicamente, levando-lhe em cada visita as mais variadas
iguarias, pão e patê, uma garrafa de bordeaux, um quilo de espaguete embrulhado
em papel manilhinha, chá e açúcar, arroz, azeite e cigarros, o que podia
encontrar na cozinha da embaixada ou no mercado negro, esse pintor guatemalteco
submetido à caridade do nosso escritor nunca lhe agradecia, podia don Salvador
aparecer com uma lata de caviar, geléia de cereja e champanhe, que ele nunca
dizia obrigado, Salvador, ou obrigado, don Salvador, inclusive uma ocasião
nosso egrégio diplomata levou, numa das visitas, um dos seus romances, um
romance que pensara dar de presente a outra pessoa, cujo nome é melhor manter
em discreto segredo pois essa pessoa era casada, mas, ao ver o pintor
guatemalteco tão abatido, resolveu lhe dar ou emprestar o romance, e, quando
voltou a visitá-lo, um mês depois, o romance, seu romance, estava na mesma mesa
ou cadeira em que o tinha deixado, e, ao perguntar ao pintor se o romance lhe
desagradara ou, pelo contrário, se havia achado em suas páginas um
entretenimento prazeroso, ele respondeu, desalentado e com má vontade, como sempre
parecia estar, que não tinha lido, diante do que don Salvador disse, com o
desânimo próprio dos autores (pelo menos dos autores chilenos e argentinos) que
se vêem numa situação como essa: então você não gostou, homem; ao que o
guatemalteco respondeu que não gostara nem desgostara, que simplesmente não
tinha lido, então don Salvador pegou seu romance e pôde perceber na capa a
poeira que se deposita nos livros (nas coisas!) quando não são usados, e soube
nesse instante que o guatemalteco dizia a verdade, por isso não se aborreceu,
embora tenha ficado sem aparecer na mansarda cerca de dois meses. Quando voltou
a aparecer, o pintor estava mais magro que nunca, como se durante aqueles dois
meses não houvesse posto nada na boca, como se quisesse se deixar morrer
contemplando da sua janela o plano urbano de Paris, acometido pelo que então
alguns médicos chamavam de melancolia e hoje se chama anorexia, uma doença de
que padecem majoritariamente as mocinhas, as lolitas que o vento reluzente leva
e traz pelas ruas imaginárias de Santiago, da qual, no entanto, naqueles anos e
naquela cidade submetida à vontade germânica padeciam os pintores guatemaltecos
que viviam em obscuras e altíssimas mansardas, doença que não recebia o nome de
anorexia, mas de melancolia, morbus melancholicus, o mal que ataca os
pusilânimes, então don Salvador Reyes ou talvez Farewell, mas, se foi Farewell,
foi muito depois, lembrou o livro de Robert Burton, Anatomia da melancolia, em
que se dizem coisas tão acertadas sobre esse mal, talvez nesse momento todos os
ali presentes nos calamos e dedicamos um minuto de silêncio àqueles que
sucumbiram aos influxos da bile negra, essa bile negra que hoje me corrói e me
abate e me deixa à beira das lágrimas ao ouvir as palavras do jovem
envelhecido; quando nos calamos, foi como se compuséssemos, em estreita aliança
com o acaso, uma cena que parecia tirada de um filme de cinema mudo, uma tela
branca, tubos de ensaio e retortas, e um filme queimado, queimado, queimado,
então don Salvador falou de Schelling (que ele nunca tinha lido, segundo
Farewell), que falava da melancolia como ânsia de infinito — Sehnsucht —,
relatou intervenções neurocirúrgicas em que se seccionam umas fibras nervosas
do paciente que unem o tálamo ao córtex cerebral do lobo frontal, depois voltou
a falar do pintor guatemalteco, seco, descarnado, raquítico, chupado,
escanifrado, emaciado, macilento, depauperado, consumido, flébil, afilado, numa
palavra, magérrimo, a tal ponto que don Salvador se assustou, pensou a que
ponto você chegou, fulano, beltrano ou como quer que se chamasse o
centro-americano, e seu primeiro impulso, como bom chileno, foi convidá-lo para
jantar ou tomar uma once, mas o guatemalteco não aceitou, alegando que
lhe dava não sei quê descer à rua naquelas horas, e nosso diplomata perdeu a
paciência ou a diplomacia e perguntou desde quando ele não comia, e o
guatemalteco disse que tinha comido havia pouco, quando é há pouco?, ele não
lembrava, mas don Salvador, ele sim, lembrava-se de um detalhe, e o detalhe era
o seguinte: que, quando ele parou de falar e pôs num aparador ao lado do
fogareiro uns escassos petiscos que trouxera, quer dizer, quando o silêncio
voltou a reinar na mansarda do guatemalteco e a presença de don Salvador se
tornou leve, ocupado que ele estava em arrumar a comida, ou em olhar pela
centésima vez as telas do guatemalteco penduradas nas paredes, ou em ficar
sentado, pensando, fumando, enquanto deixava o tempo passar com uma vontade (e
com uma indiferença) que só os que passaram muito tempo no serviço diplomático
ou no Ministério das Relações Exteriores possuem, o guatemalteco sentou na
outra cadeira, posta ex professo ao lado da única janela, e, enquanto don
Salvador desperdiçava o tempo sentado na cadeira do fundo admirando a paisagem
móvel da sua própria alma, o guatemalteco melancólico e raquítico desperdiçava
o tempo admirando a paisagem repetida e insólita de Paris. E, quando os olhos
do nosso escritor descobriram a linha transparente, o ponto de fuga para o qual
convergia ou do qual divergia o olhar do guatemalteco, bom, bom, então por sua
alma passou a sombra de um calafrio, o desejo imediato de fechar os olhos, de
parar de olhar para aquele ser que olhava o crepúsculo tremulante de Paris, o
impulso de fugir ou de abraçá-lo, o desejo (que encobria uma ambição ponderada)
de lhe perguntar o que ele via e, ato contínuo, apropriar-se dessa visão, e ao
mesmo tempo o medo de ouvir o que não se pode ouvir, as palavras essenciais que
não podemos ouvir e com quase toda a certeza não podem ser pronunciadas. Foi
ali, naquela mansarda, por puro acaso, que don Salvador se encontrou tempos
depois com Ernst Jünger, o qual fora visitar o guatemalteco, impelido por seu
fino olfato e, principalmente, por sua inesgotável curiosidade. Quando don
Salvador transpôs o umbral da moradia do centro-americano, a primeira coisa que
viu foi Jünger metido na sua farda de oficial da Wehrmacht, absorto no estudo
de um quadro de dois metros por dois, um óleo que don Salvador tinha visto
inúmeras vezes e levava o curioso título de Paisagem da Cidade do México uma
hora antes do amanhecer, um quadro de inequívoca influência surrealista,
movimento a que o guatemalteco havia se associado com mais vontade que êxito,
sem jamais gozar da bênção oficial dos celebrantes da ordem de Breton, no qual
se advertia certa leitura marginal de alguns paisagistas italianos, assim como
uma afinidade, muito própria, aliás, de centro-americanos extravagantes e
hipersensíveis, com os simbolistas franceses Redon ou Moreau. O quadro mostrava
a Cidade do México vista de um morro ou talvez da sacada de um edifício alto.
Predominavam os verdes e os cinzas. Alguns bairros pareciam ondas. Outros
bairros pareciam negativos de fotografias. Não se percebiam figuras humanas,
mas, aqui e ali, esqueletos esfumados que podiam ser tanto de pessoas como de
animais. Quando Jünger viu don Salvador, uma levíssima expressão de surpresa,
seguida de uma expressão de alegria igualmente leve, cruzou seu rosto. Claro,
cumprimentaram-se efusivamente e trocaram as perguntas de praxe. Depois Jünger
se pôs a falar de pintura. Don Salvador lhe fez perguntas sobre a arte alemã,
que não conhecia. Teve a impressão de que na verdade Jünger só se interessava
por Dürer, de modo que por um instante se dedicaram a falar apenas de Dürer. O
entusiasmo de ambos foi num crescendo. De repente don Salvador se deu conta de
que desde que chegara não havia trocado uma só palavra com o anfitrião.
Procurou-o enquanto um pequeno sinal de alarme começava a aumentar dentro de
si. Quando lhe perguntamos que sinal de alarme era esse, respondeu que teve
medo de que o guatemalteco tivesse sido detido pela polícia francesa ou, pior
ainda, pela Gestapo. Mas o guatemalteco estava ali, sentado à janela, absorto
(a palavra não é absorto, a palavra nunca poderá ser absorto) na
contemplação fixa de Paris. Com alívio, nosso diplomata mudou habilmente de
assunto e perguntou a Jünger o que achava das obras do centro-americano
silencioso. Jünger disse que o pintor parecia sofrer de uma anemia aguda e que
sem dúvida nenhuma o que mais lhe conviria era comer. Nesse momento don
Salvador se deu conta de que ainda tinha nas mãos as provisões que trouxera
para o guatemalteco, um pouco de chá, um pouco de açúcar, um pão, e meio quilo
de um queijo de cabra de que nenhum chileno gosta, o qual tinha subtraído da
cozinha da nossa embaixada. Jünger olhava para a comida. Don Salvador corou e
tratou de deixá-la nas prateleiras enquanto anunciava ao guatemalteco que havia
lhe "trazido umas coisinhas". O guatemalteco, como de costume, não
agradeceu nem se virou para ver de que coisinhas se tratava. Durante alguns
segundos, recordou don Salvador, a situação não pôde ser mais ridícula. Jünger
e ele em pé, sem saber o que dizer, e o pintor centro-americano amuado, à
janela, dando-lhes obstinadamente as costas. Mas Jünger tinha uma resposta para
qualquer situação e, ante o desinteresse do anfitrião, tratou ele mesmo de
fazer as honras da casa a don Salvador, aproximando duas cadeiras e oferecendo
ao nosso diplomata cigarros turcos, que pelo visto reservava unicamente para
seus amigos ou para situações ad hoc, pois não fumou nenhum durante o resto da
visita. Nessa tarde, alheios e distantes da agitação e das intromissões muitas
vezes indiscretas dos salões parisienses, o escritor chileno e o escritor alemão
falaram de tudo o que quiseram, do humano e do divino, da guerra e da paz, da
pintura italiana e da pintura nórdica, da fonte do mal e dos efeitos do mal,
que às vezes parecem concatenados pelo azar, da flora e da fauna do Chile, que
Jünger parecia conhecer graças à leitura do seu compatriota Philippi, que soube
ser alemão e chileno ao mesmo tempo, acompanhados de uma xícara de chá que o
próprio don Salvador preparou (o guatemalteco, ao ser perguntado se queria uma,
recusou quase inaudivelmente), à qual se seguiram dois copos de conhaque,
tirado da provisão trazida por Jünger em sua garrafinha de prata, que o
guatemalteco dessa vez não recusou, o que provocou inicialmente o sorriso e em
seguida a risada franca e descontraída dos dois escritores e as engenhosas
gozações de praxe. Depois, tendo o guatemalteco voltado à sua janela com sua
ração de conhaque, Jünger quis saber, pois estava interessado naquele óleo, se
o pintor vivera muito tempo na capital asteca e se tinha algo a dizer sobre sua
estada lá, ao que o guatemalteco respondeu que havia estado na Cidade do México
apenas uma semana e que suas lembranças dessa cidade eram indefinidas e quase
sem contornos, e que, além do mais, tinha pintado em Paris o quadro objeto da
atenção e da curiosidade do germânico, muitos anos depois e quase sem pensar no
México, embora experimentando algo que o guatemalteco, na falta de palavra
melhor, chamava de sentimento mexicano. O que deu ensejo a Jünger para falar
sobre os poços cegos da memória, aludindo a uma possível visão captada pelo
guatemalteco durante sua breve estada na Cidade do México, a qual só havia
aflorado muitos anos depois, mas don Salvador, que assentia a tudo o que o
herói germânico dizia, pensou que talvez não se tratasse de poços cegos
repentinamente abertos ou em todo caso não precisamente desses poços cegos, e
bastou pensar nisso para que sua cabeça começasse a zumbir, como se dela
escapassem centenas de mutucas, visíveis unicamente por meio de uma sensação de
calor e de enjôo, apesar de a mansarda do guatemalteco não ser propriamente um
lugar quente, e as mutucas voavam transparentes diante das suas pálpebras, como
gotas de suor com asas, fazendo o zumbido característico dos moscardos, pois,
ou o som característico das mutucas, que são a mesma coisa embora em Paris não
haja mutucas, e então don Salvador, enquanto assentia mais uma vez, já não
compreendendo nada além de frases soltas do discurso em francês que Jünger lhe
pespegava, enxergou ou julgou enxergar uma parte da verdade, e, nessa parte
mínima da verdade, o guatemalteco se encontrava em Paris, e a guerra havia
começado, ou estava prestes a começar, e o guatemalteco já tinha adquirido o
costume de passar longas horas mortas (ou agônicas) diante da sua única janela
contemplando o panorama de Paris, e dessa contemplação havia surgido a Paisagem
da Cidade do México uma hora antes do amanhecer, da contemplação insone de
Paris pelo guatemalteco, e a seu modo o quadro era um altar de sacrifícios
humanos, e a seu modo o quadro era um gesto de soberano fastio, e a seu modo o
quadro era uma aceitação de uma derrota, não a derrota de Paris nem a derrota
da cultura européia, briosamente disposta a incinerar a si mesma, nem a derrota
política de ideais que o pintor vagamente compartilhava, mas a derrota dele próprio,
um guatemalteco sem fama nem fortuna mas disposto a fazer um nome nos cenáculos
da Cidade Luz, e a lucidez com que o guatemalteco aceitava sua derrota, uma
lucidez que inferia outras coisas, as quais transcendiam o puramente particular
e anedótico, fez que os pêlos dos braços do nosso diplomata se eriçassem ou,
como diz o vulgo, que ele ficasse todo arrepiado. Então don Salvador tomou de
um só gole o que lhe restava de conhaque e voltou a ouvir as palavras do
alemão, que durante aquele tempo todo estivera falando sozinho, pois ele, nosso
escritor, tinha se emaranhado na teia dos pensamentos inúteis, e o
guatemalteco, como era de esperar, jazia junto da sua janela, consumindo-se na
repetida e estéril contemplação de Paris. Assim, depois de pegar sem muita
dificuldade (ou assim julgou) o fio da conversa, don Salvador pôde participar
da exposição teórica de Jünger, uma exposição que teria assustado até o próprio
Pablo, se não estivesse atenuada pela modéstia, pela falta de empolamento com
que o alemão expunha seu credo das belas-artes. E depois o oficial da Wehrmacht
e o diplomata chileno deixaram juntos a mansarda do pintor guatemalteco, e,
enquanto desciam a interrriinável escada para ganhar a rua, Jünger disse não
acreditar que o guatemalteco chegasse vivo ao inverno seguinte, coisa que soava
estranha provinda da sua boca, pois não era novidade para ninguém naqueles dias
que muitos milhares de pessoas não iam chegar vivas ao inverno seguinte, a
maioria delas muito mais sadias que o guatemalteco, a maioria mais alegre, a
maioria com uma disposição para a vida notavelmente superior à do guatemalteco,
mas Jünger mesmo assim disse isso, talvez sem pensar, ou mantendo cada coisa em
seu devido lugar, e don Salvador assentiu mais uma vez, embora, de tanto visitar
o pintor, não estivesse tão seguro de que ele fosse morrer, mas assim mesmo
disse que sim, que evidentemente, que claro, ou talvez só tenha pigarreado o
hum-hum dos diplomatas, que pode significar qualquer coisa ou seu contrário.
Pouco_depois Ernst Jünger foi jantar na casa de Salvador Reyes, e dessa vez os
conhaques foram servidos em taças de conhaque, e se falou de literatura,
sentados em cômodas poltronas, e o jantar foi, digamos, equilibrado, como deve
ser um jantar em Paris, tanto no aspecto gastronômico como no intelectual, e,
quando o alemão se despediu, don Salvador lhe ofereceu um dos seus livros
traduzidos para o francês, talvez o único, não sei, de acordo com o jovem
envelhecido ninguém em Paris conserva a mais remota lembrança de don Salvador Reyes,
deve dizer isso só para implicar comigo, pode ser mesmo que ninguém mais se
lembre de Salvador Reyes em Paris, no Chile poucos, de fato, lembram-se dele, e
ainda menos gente o lê, mas isso não vem ao caso, o que vem ao caso é que, ao
ir embora da residência de Salvador Reyes, o alemão levava no bolso do terno um
livro do nosso escritor, e não há dúvida de que leu o livro, pois fala dele nas
suas memórias, e não fala mal. Isso foi tudo o que Salvador Reyes nos contou
dos seus anos em Paris durante a Segunda Guerra Mundial. Uma coisa é certa, e
dela deveríamos nos orgulhar: em suas memórias Jünger não fala de nenhum
chileno, salvo don Salvador Reyes. Nenhum chileno mostra seu trêmulo nariz na
obra escrita desse alemão, salvo don Salvador Reyes. Não existe nenhum chileno,
como ser humano e como autor de um livro, naqueles anos obscuros e ricos de
Jünger, salvo don Salvador Reyes. E naquela noite, enquanto me afastava da casa
do nosso narrador e diplomata, caminhando por uma rua bordada de tílias, na companhia
da intemperante sombra de Farewell, tive uma visão em que a graça se derramava
a rodo, brunida como o sonho dos heróis, e, como era jovem e impulsivo,
comuniquei-a de imediato a Farewell, que só pensava em chegar depressa a um
restaurante cujo cozinheiro lhe indicaram, e eu disse a Farewell que por um
instante tinha me visto, ali, enquanto caminhávamos por aquela sossegada rua
bordada de tílias, escrevendo um poema em que se cantava a presença ou a sombra
áurea de um escritor adormecido no interior de uma nave espacial, como um
passarinho num ninho de ferragens fumegantes e retorcidas, e que esse escritor
que empreendia a viagem para a imortalidade era Jünger, que a nave se
espatifara na cordilheira dos Andes, que o corpo impoluto do herói seria conservado
entre as ferragens pelas neves eternas e que a escritura dos heróis e, por
extensão, os amanuenses da escritura dos heróis eram em si mesmos um canto, um
canto de louvor a Deus e à civilização. Farewell, que apressava o passo na
medida das suas possibilidades, pois sentia cada vez mais fome, olhou para mim
por cima do ombro, como se olha para um fedelho, e me obsequiou com um sorriso
gozador. Disse que provavelmente as palavras de Salvador Reyes tinham me
impressionado. Isso não era bom. Gostar é bom. Impressionar-se é ruim. Farewell
disse isso sem parar um só instante. Depois disse que sobre o tema dos heróis
havia muita literatura. Tanta que duas pessoas de gostos e idéias
diametralmente opostos podiam escolher com os olhos fechados sem nunca ter a possibilidade
de coincidir. Depois se calou, como se o esforço da caminhada o estivesse
matando, e passado um instante disse: chitas, que fome!, uma expressão
que eu nunca tinha ouvido antes e nunca tornei a ouvir, e não disse mais nada
até estarmos sentados à mesa de um restaurante zurrapa, onde, enquanto engolia
uma variada e gostosa iguaria chilena, contou a história da Colina dos Heróis,
ou Heldenberg, uma colina que se encontra em algum ponto da Europa Central, na
Áustria ou na Hungria, talvez. Na minha ingenuidade, pensei que a história que
Farewell ia me contar tinha alguma coisa a ver com Jünger ou com o que eu lhe
dissera antes, levado pelo entusiasmo, sobre Jünger e a nave espatifada na
cordilheira, sobre a viagem dos heróis à imortalidade, os quais viajam
agasalhados unicamente com seus escritos. Mas o que Farewell contou foi a
história de um sapateiro, um sapateiro que era súdito do imperador
austro-húngaro, um comerciante que havia feito fortuna importando sapatos de um
lugar para vendê-los em outro e, depois, fabricando sapatos em Viena para
vendê-los aos elegantes de Viena, Budapeste e Praga, e também aos elegantes de
Munique e de Zurique, e aos elegantes de Sofia, Belgrado, Zagreb e Bucareste.
Um homem de negócios que havia começado com pouco, talvez com uma empresa
familiar de trajetória errática que ele tinha consolidado, expandido e tornado
famosa, porque os sapatos desse fabricante eram apreciados por todos os que os
usavam, destacando-se por seu gosto requintado e sua extrema comodidade, pois se
tratava basicamente disso, da conjugação de beleza com comodidade, sapatos e
também botas, botinas, borzeguins, e até pantufas e chinelos, que calçavam bem
e eram muito duradouros, numa palavra, você podia ter certeza de que esses
sapatos não iam deixá-lo na mão no meio do caminho, o que sempre se agradece,
você podia ter certeza de que esses sapatos não iam provocar calos nem agravar
os calos já existentes, o que os assíduos no pedicuro certamente não levam na
brincadeira, enfim, sapatos cujo nome e cuja marca eram garantia de distinção e
conforto. O sapateiro em questão, o sapateiro de Viena, tinha entre seus
clientes o próprio imperador do Império Austro-Húngaro, e era convidado, ou se
fazia convidar, para algumas recepções em que às vezes compareciam o imperador
e seus ministros, e os marechais ou generais do império, que chegavam, mais de
um, calçando as botas de montar ou os sapatos de passeio do sapateiro e não
negavam a este um breve particular, em que costumavam trocar frases banais mas
sempre amáveis, reservadas e discretas mas tingidas daquela suave, quase
imperceptível, melancolia de palácio de outono, que era a melancolia dos
austro-húngaros, segundo Farewell, ao passo que a melancolia russa, por
exemplo, era a dos palácios de inverno, ou a dos espanhóis, e nesta apreciação
creio que Farewell exagerava, a dos palácios de verão e dos incêndios, e o
sapateiro, estimulado segundo alguns por essas deferências, movido segundo
outros por transtornos bem diferentes, começou a acariciar e deixar germinar e
cultivar com esmero uma idéia que, quando rematada, não demorou a expor ao
imperador em pessoa, embora para isso tenha precisado pôr em jogo a totalidade
das suas amizades no círculo imperial, no círculo militar e no círculo
político. Quando mexeu todos os pauzinhos, começaram a se abrir as portas, e o
sapateiro transpôs umbrais e ante-salas, e ingressou em salões cada vez mais
majestosos e escuros, se bem que de uma escuridão acetinada, uma escuridão
regia, onde os passos não ressoavam, primeiro pela qualidade e espessura dos
tapetes, segundo pela qualidade e maciez dos sapatos, e, na última câmara a que
foi conduzido, estava sentado numa cadeira das mais comuns o imperador, com
alguns dos seus conselheiros, e, embora estes últimos o estudassem com semblante
severo e até perplexo, como se se perguntassem o que aquele sujeito tinha
perdido, que mosca tropical o mordera, que louco anseio se instalara no
espírito do sapateiro para solicitar e obter uma audiência com o soberano de
todos os austro-húngaros, o imperador, pelo contrário, o recebeu com palavras
cheias de carinho, como um pai recebe o filho, lembrando os sapatos da casa
Lefebvre de Lyon, bons mas inferiores aos sapatos do seu dileto amigo, os
sapatos da casa Duncan & Segal de Londres, excelentes mas inferiores aos
sapatos do seu fiel súdito, e os sapatos da casa Niederle de um vilarejo alemão
cujo nome o imperador não lembrava (Fürth, ajudou-o o sapateiro), comodíssimos
mas inferiores aos sapatos do seu empreendedor compatriota, depois falaram de caçadas,
de botas de caça, de botas de montar, de diversos tipos de couro e dos sapatos
de senhoras, se bem que, ao chegar a esse ponto, o imperador tenha optado
velozmente por censurar a si próprio dizendo cavalheiros, cavalheiros, um pouco
de discrição, como se seus conselheiros é que houvessem trazido o assunto à
baila e não ele, pecadilho que os conselheiros e o sapateiro aceitaram com
jocosidade, culpando-se sem reservas, até que finalmente chegaram ao miolo da
audiência, e, enquanto todos se serviam de outra xícara de chá ou café ou
tornavam a encher suas taças de conhaque, chegou a vez do sapateiro, e este,
enchendo os pulmões de ar, com a emoção que o instante impunha, e mexendo as
mãos como se acariciasse a corola de uma flor inexistente mas possível de
imaginar, ou seja, provável, explicou ao soberano qual era sua idéia. E a idéia
era Heldenberg ou a Colina dos Heróis. Uma colina situada num vale que ele
conhecia, entre este povoado e aquele, uma colina de formação calcária, com
carvalhos e cedros nas faldas e mato de todo tipo nas zonas altas e mais
pedregosas, de cor verde e negra, se bem que na primavera se podiam apreciar
cores dignas da paleta do mais exuberante dos pintores, uma colina que alegrava
a vista se fosse contemplada do vale e dava muito que pensar se fosse
contemplada das zonas altas que circundavam o vale, uma colina que parecia um
pedaço de outro mundo, posto ali como lembrete para os homens, para o
recolhimento do coração, para alívio da alma, para a alegria dos sentidos. Por
azar, a colina tinha um dono, o conde de H, um latifundiário da região, mas o
sapateiro já havia solucionado esse problema falando com o conde, a princípio
refratário à venda de um fragmento improdutivo da sua propriedade, por pura
obstinação de proprietário, conforme contou o sapateiro, sorrindo com
comedimento como se entendesse o pobre conde, mas finalmente, depois de lhe
oferecer uma soma considerável, o conde estava disposto a vender. A idéia do
sapateiro era, portanto, comprar a colina e consagrá-la como monumento aos
heróis do império. Não só aos heróis do passado e aos heróis do presente, mas
também aos heróis do futuro. Isto é, a colina devia funcionar como campo-santo
e como museu. De que forma como museu? Erigindo-se uma estátua, de tamanho
natural, a cada herói que tenha existido nas terras do império e até, mas só em
casos muito especiais, a alguns heróis estrangeiros. De que forma como
campo-santo? Bem, isso era fácil entender: enterrando-se ali os heróis da
pátria, uma decisão que recairia na virtude de uma comissão de militares,
historiadores e homens da lei e cuja palavra final caberia sempre ao imperador.
De tal modo que na colina repousariam para sempre os heróis do passado, cujos
esqueletos ou, melhor dizendo, cinzas, era praticamente impossível localizar,
na forma de estátuas que se ateriam ao que os historiadores, as lendas, a
tradição oral ou os romances diziam das suas características físicas, e os
heróis recentes ou futuros, cujos corpos, por assim dizer, estavam à mão dos
funcionários do reino. O que o sapateiro pedia ao imperador? Antes de mais
nada, sua vênia e seu beneplácito, que a empresa fosse do seu agrado, depois o
apoio pecuniário do Estado, pois ele sozinho não podia arcar com todos os
gastos que tão faraônica empreitada lhe acarretaria. Quer dizer, o sapateiro
estava disposto a pagar do próprio bolso a aquisição da Colina dos Heróis, sua
adaptação a cemitério, a grade que a circundaria, os caminhos que tornariam
acessível cada canto a todos os visitantes, e até algumas estátuas de heróis do
passado gratos à memória patriótica do sapateiro, além de três
guardas-florestais, que podiam servir de guarda-cemitérios, e jardineiros, que
já trabalhavam numa das suas propriedades campestres, homens solteiros e
robustos com quem se podia contar tanto para cavar um túmulo como para
afugentar os saqueadores noturnos de túmulos; O resto, isto é, a contratação de
escultores, a compra da pedra, do mármore ou do bronze, a manutenção
administrativa, as licenças e a publicidade, o traslado das esculturas, o
caminho que ligaria a Colina dos Heróis à estrada principal de Viena, os fastos
que ali se celebrassem, os transportes dos parentes e das comitivas, a
construção de uma pequena (ou não tão pequena) igreja, etcétera, etcétera, com
tudo isso arcaria o Estado. Em seguida o sapateiro se estendeu sobre os
benefícios morais de um monumento semelhante e falou dos velhos valores, do que
restava quando tudo desaparecia, do crepúsculo dos afãs humanos, do tremor e
dos últimos pensamentos, e, quando terminou de falar, o imperador, com lágrimas
nos olhos, pegou-lhe as mãos, aproximou os lábios do ouvido do sapateiro e
sussurrou palavras entrecortadas mas firmes que mais ninguém escutou, depois o
olhou nos olhos, um olhar que era difícil sustentar e, no entanto, o sapateiro,
cujos olhos também estavam úmidos, sustentou sem pestanejar, depois o imperador
moveu a cabeça várias vezes em sucessivas afirmações e, olhando para seus
conselheiros, disse bravo, perfeito, excelente, ao que os outros repetiram
bravo, bravo. Com isso estava tudo dito, e o sapateiro saiu do palácio
esfregando as mãos, radiante de felicidade. Em poucos dias a Colina dos Heróis
já tinha mudado de proprietário, e o impetuoso sapateiro, sem esperar sinal
algum, deu o tiro de largada para que uma turma de operários se pusesse em
movimento e iniciasse as primeiras obras, obras que ele supervisionou
pessoalmente, mudando-se para uma pousada do vilarejo ou povoado mais próximo,
sem dar tento aos desconfortos, entregando-se à sua obra como só um artista é capaz
de fazê-lo, contra ventos e marés, sem se importar com a chuva que
freqüentemente empapava os campos daquela região, nem com as tempestades que
passavam pelo céu cinza-aço da Áustria ou da Hungria em sua marcha inexorável
para o oeste, tempestades semelhantes a furacões imantados pelas grandes
sombras alpinas que o sapateiro via passar com a capa pingando água, as calças
pingando água, os sapatos enterrados no barro mas absolutamente impermeáveis,
sapatos decerto magníficos, cujo elogio era impossível ou só estava ao alcance
de um artista verdadeiro, sapatos para dançar, para correr ou para trabalhar na
lama, sapatos que nunca deixariam na incerteza ou em maus lençóis seu
proprietário e nos quais o sapateiro, lamentavelmente, mal prestava atenção (seu
ajudante, depois de limpar o barro, lustrava-os toda noite, ou o jovem
empregadinho da pousada, quando o sapateiro jazia capitulado, enrolado nos
lençóis, às vezes sem nem sequer se despir totalmente), entregue a seu sonho
obsessivo, caminhando através dos seus pesadelos, no fim dos quais sempre o
esperava a Colina dos Heróis, grave e quieta, escura e nobre, o projeto, a obra
que muitas vezes cremos conhecer mas na realidade conhecemos muito pouco, o
mistério que levamos no coração e num momento de arroubo colocamos no centro de
uma bandeja de metal lavrada com caracteres micenianos, caracteres que
balbuciam nossa história e nosso anseio mas na realidade só balbuciam nossa
derrota, a justa em que caímos e não sabemos, e pusemos o coração no meio dessa
bandeja fria, o coração, o coração, e o sapateiro estremecia na cama, falava
sozinho, pronunciava a palavra coração e também a palavra fulgor, e
parecia se afogar, e seu ajudante entrava no quarto daquela fria pousada e lhe
dizia palavras tranqüilizadoras, acorde, senhor, é só um sonho, senhor, e,
quando o sapateiro abria os olhos, olhos que segundos antes haviam contemplado
seu coração ainda palpitante no meio da bandeja, o ajudante lhe oferecia um
copo de leite quente e em resposta só recebia um tapa sem convicção, como se o
sapateiro na realidade afastasse seus próprios pesadelos, e depois, olhando
para ele como se mal o reconhecesse, dizia que deixasse de mesquinharias, que
lhe trouxesse uma taça de conhaque ou um pouco de aguardente. E assim dia após
dia, noite após noite, com bom ou mau tempo gastando a mancheias seu próprio
dinheiro, pois o imperador, depois de ter chorado e dito bravo, excelente, não
disse mais nada, os ministros também optaram pelo silêncio, e com eles os
conselheiros, os generais e os coronéis mais entusiastas, e sem investidores o
projeto não podia andar, mas o fato é que o sapateiro o pusera em andamento e
já não podia parar. Quase não o viam mais em Viena, salvo para dar seguimento
aos seus trâmites infrutíferos, pois passava o tempo na Colina dos Heróis,
supervisionando os trabalhos dos seus cada vez menos numerosos operários,
montado num quartão ou quartau resistente às inclemências do tempo, tão duro e
obstinado quanto ele, ou trabalhando ele também, se a ocasião assim requeria.
No início, no palácio imperial e nos salões elegantes de Viena, seu nome e sua
idéia correram como um fino rastilho que um deus gozador teria acendido como
passatempo público, depois caiu no esquecimento, como costuma acontecer com
tudo. Um dia não se falou mais nele. Noutro dia as pessoas esqueceram seu
rosto. Seus negócios de sapataria provavelmente enfrentaram melhor a passagem
dos anos. Às vezes alguém, um velho conhecido, via-o numa rua de Viena, mas o
sapateiro já não cumprimentava ninguém nem respondia ao cumprimento de ninguém,
e ninguém se espantava se ele mudasse de calçada. Vieram épocas duras e épocas
confusas, mas sobretudo vieram épocas terríveis, em que o duro e o confuso se
mesclavam ao cruel. Os escritores continuaram invocando suas musas. O imperador
morreu. Veio uma guerra, e o império morreu. Os músicos continuaram compondo, e
as pessoas indo aos concertos. Do sapateiro ninguém mais guardava memória,
salvo a fugidia e casual dos poucos possuidores dos seus esplêndidos e
resistentes sapatos. Mas o negócio das sapatarias também se viu envolvido na
crise mundial, mudou de dono e desapareceu. Os anos que se seguiram foram ainda
mais confusos e duros. Vieram assassinatos e perseguições. Veio depois outra
guerra, a mais terrível de todas as guerras. E um dia apareceram no vale os
tanques soviéticos, e o coronel que comandava o regimento de tanques viu com
seu binóculo, da torre do seu blindado, a Colina dos Heróis. As lagartas dos
tanques rangeram e se aproximaram da colina, a qual refulgia como metal escuro
aos últimos raios de sol que se espalhavam pelo vale. O coronel russo desceu do
tanque e se perguntou que diabo é isto. Os russos que estavam nos outros
tanques também desceram, esticaram as pernas, acenderam cigarros e contemplaram
a grade negra de ferro forjado que circundava a colina, o portão de vastas
proporções, as letras fundidas em bronze e chumbadas num rochedo na entrada
anunciando ao visitante que aquilo era Heldenberg. Um camponês, que em sua
meninice havia trabalhado ali, disse, ao ser indagado, que aquilo era um
cemitério, o cemitério onde iam ser enterrados todos os heróis do mundo. Então
o coronel e seus homens transpuseram a entrada, para isso tendo de arrombar
três velhos e enferrujados cadeados, e se puseram a caminhar pelas veredas da
Colina dos Heróis. Não viram estátuas de heróis nem túmulos, só desolação e
abandono, até que no alto da colina descobriram uma cripta similar a uma
caixa-forte, com a porta lacrada, que trataram de abrir. No interior da cripta,
sentado numa curul de pedra, acharam o cadáver do sapateiro, as órbitas vazias
como se nunca mais fossem contemplar nada, além do vale sobre o qual se erguia
sua colina, a queixada aberta como se, depois de entrever a imortalidade, ainda
estivesse rindo, disse Farewell. Depois disse: entende? entende? Vi outra vez
meu pai, encarnado na sombra de uma doninha ou de um furão, esgueirando-se
pelos cantos da casa, que eram como que os cantos da minha vocação. Depois
Farewell repetiu: entende? entende?, enquanto pedíamos café e as pessoas, na
rua, apressavam-se, premidas por uma ânsia incompreensível de chegar em casa, e
suas sombras se projetavam uma atrás da outra, cada vez mais rápido, nas
paredes do restaurante onde Farewell e eu mantínhamos contra ventos e marés,
embora talvez eu devesse dizer contra o aparato eletromagnético que tinha se
desencadeado nas ruas de Santiago e no espírito coletivo dos santiaguinos, uma
imobilidade apenas interrompida pelos gestos das nossas mãos, que aproximavam
as xícaras de café dos lábios, enquanto nossos olhos observavam como quem não
quer nada, como se fazendo de distraídos, à chilena, as sombras chinesas que
apareciam e desapareciam como raios negros nos tabiques do restaurante, um
divertimento que parecia hipnotizar meu mestre e me dava vertigem e dor nos
olhos, uma dor que se estendia às têmporas, aos parietais e à totalidade do
crânio, a qual eu aliviava com orações e Melhorais, embora naquela ocasião,
lembro-me agora apoiado com esforço no cotovelo, como se quisesse empreender de
imediato o vôo beatífico, a dor tenha se mantido só nos olhos, o que era fácil
debelar, pois, fechando-os, o problema ficava liquidado, coisa que eu poderia e
deveria ter feito mas não fiz, porque a expressão de Farewell, a imobilidade de
Farewell, só quebrada então por um ligeiro movimento ocular, foi adquirindo
para mim conotações de terror infinito ou de terror disparado para o infinito,
que é, aliás, o destino do terror, elevar-se, elevar-se e não terminar nunca,
daí nossa aflição, daí nosso desconsolo, daí algumas interpretações da obra de
Dante, esse terror fino como uma minhoca e inerme e, no entanto, capaz de
subir, subir e se expandir como uma equação de Einstein, e a expressão de
Farewell, como eu dizia, foi adquirindo essa conotação, embora quem passasse
junto da nossa mesa e olhasse para ele visse apenas um cavalheiro respeitável
numa atitude um tanto introspectiva. Então Farewell abriu a boca e, quando eu
pensava que ele ia me perguntar mais uma vez se eu entendia, disse: Pablo vai
ganhar o Nobel, Disse isso como se soluçasse no meio de um campo de cinzas. E
disse: a América vai mudar. E: o Chile vai mudar. Depois seus maxilares se
desencaixaram, e mesmo assim ele afirmou: não vou ver isso. E eu disse:
Farewell, o senhor vai ver, vai ver tudo. Naquele momento eu soube que eu não
falava do céu nem da vida eterna mas fazia minha primeira profecia e que, se o
que Farewell previa se consumasse, ele ia presenciá-lo. Farewell disse: a
história do vienense me deixou triste, Urrutia. E eu: o senhor vai viver muitos
anos, Farewell. E Farewell: de que serve a vida, para que servem os livros, são
apenas sombras. E eu: como essas sombras que o senhor estava contemplando? E
Farewell: justamente. E eu: Platão tem um livro muito interessante sobre esse
assunto. E Farewell: não seja idiota. E eu: que lhe dizem essas sombras,
Farewell? Conte-me. E Farewell: falam da multiplicidade das leituras. E eu:
múltiplas mas bem miseráveis, bem medíocres. E Farewell: não sei do que está
falando. E eu: dos cegos, Farewell, dos tropeções dos cegos, das suas
escaramuças vãs, das suas colisões e topadas, dos seus tropicões e tombos, do
seu alquebramento geral. E Farewell: não sei do que está falando, o que acontece, nunca tinha visto o senhor
assim. E eu; fico contente por me dizer isso. E Farewell: já não sei o que
estou lhe dizendo, quero falar quero
dizer, mas só sai espuma. E eu: o senhor que algo preciso nas sombras chinesas? distingue cenas, o redemoinho da história, um eclipse
enlouquecido? E Farewell: distingo
um quadro campestre. E eu: algo como um grupo
de camponeses que rezam, vão embora e voltam, rezam e vão embora? E Farewell: distingo
putas que se detêm por uma fração de
segundo para contemplar algo importante, depois vão embora como meteoritos. E eu: distingue algo que diga respeito ao
Chile? distingue o rumo da pátria? E Farewell: esta comida me fez mal. E eu:
distingue nas sombras chinesas nossa antologia palaciana? consegue ler algum
nome? é capaz de reconhecer algum perfil? E Farewell: vejo o perfil de Neruda e
o meu, mas na realidade me engano, é somente uma árvore, vejo uma árvore, uma
silhueta múltipla e monstruosa da folhagem, como um mar que seca, um desenho
que sugere dois perfis e na realidade é um túmulo ao ar livre partido pela
espada de um anjo ou pela maça de um gigante. E eu: e que mais? E Farewell:
putas que chegam e vão embora, um rio de lágrimas. E eu: seja mais preciso. E
Farewell: esta comida me fez mal. E eu: que curioso, a mim não sugerem nada, só
vejo sombras, sombras elétricas, como se o tempo houvesse acelerado. E Farewell:
não há consolo nos livros. E eu: e. vejo com clareza o futuro, e nesse futuro
está o senhor, gozando uma longa vida, querido e respeitado por todos. E Farewell: como o dr. Johnson? E eu:
exatamente, acertou em cheio, sem tirar nem pôr. E Farewell: como o dr. Johnson
deste pedaço de terra esquecido por Deus. E eu: Deus está em toda parte,
inclusive nos lugares mais esquisitos. E Farewell: se não me sentisse tão mal
do estômago e tão bêbado, trataria de me confessar agora mesmo, E eu: para mim
seria uma honra. E Farewell: ou trataria de arrastá-lo para o banheiro e
enrabá-lo logo de uma vez. E eu: não é o senhor quem fala, é o vinho, são essas
sombras que a perturbam. E Farewell; não
fique vermelho, todos nós, chilenos, somos sodomitas. E eu: todos os homens são
sodomitas, todos levam um sodomita na arquitrave da alma, não só nossos pobres
compatriotas, e um dos nossos deveres é nos impor a ele, vencê-lo, pô-lo de
joelhos. E Farewell o senhor fala como um chupador de pica. Eu nunca fiz isso.
E Farewell: pode falar em confiança, pode falar em confiança, nem no seminário?
E eu: estudava e orava, orava e estudava. E Farewell: pode falar em confiança,
em confiança, em confiança. E eu: lia Santo Agostinho, lia São Tomás, estudava
a vida de todos os papas. E Farewell: ainda se lembra dessas santas vidas? E
eu: gravadas a fogo. E Farewell: quem foi Pio II? E eu: Pio II, chamado Eneas
Silvio Piccolomini, nascido nos arredores de Siena e cabeça da Igreja de 1458 a
1464, esteve no concilio de Basiléia, secretário do cardeal Capranica, depois a
serviço do antipapa Félix V, depois a serviço do imperador Frederico III, depois
coroado poeta, quer dizer, escrevia versos, conferencista na Universidade de
Viena sobre os poetas da Antigüidade, publicou em 1444 seu romance Euríalo e
Lucrécia, boccacciano, em 1445, justamente um ano depois de publicar a obra
citada, recebeu as ordens sacerdotais, e sua vida mudou, ele fez penitência,
reconheceu os erros passados, em 1449 bispo de Siena e em 1456 cardeal, com um
único pensamento, empreender uma nova cruzada, em 1458 lançou a bula Vocavit
nos Pius, em que convocava os indiferentes soberanos à cidade de Mântua, em
vão, depois, acabou-se chegando a um acordo e se decidiu empreender uma cruzada
que teria três anos de duração, mas todos se mostraram surdos às palavras do
papa, até que este assumiu o comando e a todos fez disso saber, Veneza se aliou
à Hungria, Skanderberg atacou os turcos, Estêvão, o Grande, foi proclamado Atleta
Christi, milhares de homens acudiram a Roma vindos de toda a Europa,
somente os reis continuaram surdos e indiferentes, depois o papa peregrinou a
Assis e a Ancona, onde a frota veneziana demorou a aparecer, e, quando os
barcos de guerra venezianos finalmente apareceram, o papa agonizava, e disse
"até hoje, era uma frota o que me faltava, agora eu é que faltarei à
frota", depois morreu, e a cruzada morreu com ele. Farewell disse: os
escritores sempre fazem cagada. E eu: protegeu Pinturicchio. E Farewell: nem
imagino quem seja esse Pinturicchio. E eu: um pintor. E Farewell: isso eu já
desconfiava, mas quem foi? E eu: o que pintou os afrescos da catedral de Siena.
E Farewell: o senhor já esteve na Itália? E eu: sim. E Farewell: tudo
desmorona, tudo o tempo engole, mas são os chilenos que ele engole primeiro. E
eu: é verdade. E Farewell: conhece a história de outros papas? E eu: de todos.
E Farewell: a de Adriano II? E eu: papa de 867 a 872, dele se conta uma
história interessante; quando Lotário II veio à Itália, o papa lhe perguntou se
voltara a ter relações com Valdrada, excomungada pelo papa anterior, Nicolau I,
então o imperador Lotário avançou trêmulo para o altar de Monte Cassino, onde
se deu o encontro, e o papa o esperou diante do altar, e o papa não tremia. E
Farewell: algum medo deve ter sentido. E eu: claro. E Farewell: e a história do
papa Lando? E eu: pouco se sabe desse papa, salvo que o foi de 913 a 914 e que
nomeou bispo de Ravena um protegido de Teodora, que subiu ao trono pontifício
depois da morte de Lando. E Farewell: o nome desse papa era bem incomum. E eu:
era mesmo. E Farewell: olhe, as sombras chinesas desapareceram. E eu: é
verdade, desapareceram. E Farewell: que coisa mais estranha, que terá
acontecido? E eu: provavelmente nunca saberemos. E Farewell: não há mais
sombras, não há mais velocidade, não há mais essa impressão de estarmos dentro
do negativo de uma fotografia, será que sonhamos tudo isso? E eu: provavelmente
nunca saberemos. Depois Farewell pagou o jantar, e o acompanhei até a porta da
sua casa, onde eu não quis entrar, porque tudo era naufrágio, depois me vi
caminhando sozinho pelas ruas de Santiago, pensando em Alexandre III, em Urbano
IV, em Bonifácio VIII, enquanto uma brisa fresca acariciava meu rosto
procurando me acordar completamente, embora acordar completamente fosse
impossível, pois no fundo do cérebro eu ouvia as vozes dos papas, como os
piados distantes de um bando de pássaros, sinal inequívoco de que uma parte da
minha consciência ainda sonhava ou voluntariamente não queria sair do labirinto
dos sonhos, esse campo de Marte onde se esconde o jovem envelhecido e onde se
escondem os poetas mortos que então viviam e, da iminência certa do seu
esquecimento, erguiam no interior da minha abóbada cranial a miserável cripta
dos seus nomes, das suas silhuetas recortadas em cartolina preta, das suas
obras demolidas, o que não era o caso do jovem envelhecido, na época apenas um
menino do Sul, da fronteira chuvosa e do rio mais caudaloso da pátria, o
Bío-Bío temível, o qual, porém, agora às vezes, confiando com a horda dos poetas
chilenos e das suas obras, que o tempo impassível demolia então, quando eu me
afastava da casa de Farewell pela noite de Santiago, e demole enquanto levanto
meu corpo, apoiado num cotovelo, e demolirá quando eu já não estiver aqui, isto
é, quando eu já não existir ou só existir minha reputação, minha reputação que
se assemelha a um crepúsculo, assim como a reputação de outros parece uma
baleia, um morro pelado, um barco, um rastro de fumaça ou uma cidade
labiríntica, minha reputação, que parece um crepúsculo, contemplará com as
pálpebras apenas entreabertas o ligeiro espasmo do tempo e as demolições, o
tempo que se move pelos campos de Marte como uma brisa conjectural e em cujo
redemoinho se afogam como figuras de Delville os escritores cujos livros resenhei,
os escritores de quem recebi críticas, os agonizantes do Chile e da América
cujas vozes pronunciaram meu nome, padre Ibacache, padre Ibacache, pense em nós
enquanto o senhor se afasta em passos dançarinos da casa de Farewefl, pense em
nós enquanto suas passadas internam o senhor na noite inexorável de Santiago,
padre Ibacache, padre Ibacache, pense em nossas ambições e em nossos anseios,
em nossa surda condição de homens e cidadãos, de compatriotas e escritores,
enquanto o senhor penetra nas dobras fantasmagóricas do tempo, esse tempo que
só podemos perceber em três dimensões mas na realidade tem quatro ou talvez
cinco, como a barbacã da sombra de Sordello, que Sordello?, que nem o próprio
sol pode destruir. Bobagens. Eu sei. Tolices. Estultices. Besteiras.
Disparates. Despautérios que vêm sem ser chamados (e em tropel) enquanto você
adentra a noite do seu destino. Meu destino. Meu Sordello. O começo de uma
carreira brilhante. Mas nem tudo foi tão fácil. Com o tempo, até rezar
aborrece. Escrevi críticas. Escrevi poemas. Descobri poetas. Elogiei-os.
Exorcizei naufrágios. Fui provavelmente o membro do Opus Dei mais liberal da
república. Agora o jovem envelhecido me observa de uma esquina amarela e grita
para mim. Ouço algumas das suas palavras. Diz que sou do Opus Dei. Nunca
escondi isso, disse-lhe. Mas certamente ele também não me ouve. Vejo-o mover a
mandíbula e os lábios, e sei que está gritando para mim, mas não ouço suas
palavras. Ele me vê sussurrar, apoiado num cotovelo, enquanto minha cama navega
pelos meandros da minha febre, mas também não ouve minhas palavras. Gostaria de
dizer a ele que assim não vamos a lugar nenhum. Gostaria de dizer a ele que até
os poetas do Partido , Comunista Chileno morriam de vontade de que eu
escrevesse alguma coisa amável sobre seus versos. E eu escrevi coisas amáveis
sobre seus versos. Sejamos civilizados, sussurro. Mas ele não me escuta. De vez
em quando uma ou outra das suas palavras chega com clareza. Insultos, que mais?
Bicha, disse? Qpusdeísta, disse? Bicha opusdeísta, disse? Depois minha cama dá um
giro, e não o ouço mais. Como é agradável não ouvir nada. Como é agradável
parar de se apoiar no cotovelo, nestes pobres ossos cansados, e se estirar na
cama, descansar, olhar para o céu cinzento, deixar que a cama navegue governada
pelos santos, entrecerrar as pálpebras, não ter memória e só ouvir o latejar do
sangue. Mas então meus lábios se articulam, e continuo falando. Nunca escondi
que pertenço ao Opus Dei, jovem, digo ao jovem envelhecido, embora já não o
veja, embora já não saiba se ele está atrás de mim, ao lado, ou se se perdeu
entre os manguezais que circundam o rio. Nunca escondi. Todo mundo sabia. Todos
no Chile sabiam. Só o senhor, que por vezes parece mais imbecil do que é,
ignorava. Silêncio. O jovem envelhecido não responde. Lá longe, escuto algo,
como se um bando de primatas se pusesse a tagarelar, todos ao mesmo tempo,
excitadíssimos, e então tiro a mão de sob as cobertas, toco o rio e mudo
trabalhosamente o rumo da cama, usando minha mão como remo, movendo os quatro
dedos como se se tratasse de um ventilador índio, e, quando a cama gira, a
única coisa que vejo é a selva, o rio, os afluentes e o céu, que já não é cinza
mas azul-luminoso, e duas nuvens muito pequenas e muito distantes que correm
como crianças arrastadas pelo vento. O tagarelar dos macacos se extinguiu. Que
alívio. Que silêncio. Que paz. Uma paz propícia para recordar outros céus
azuis, outras nuvens diminutas que corriam arrastadas pelo vento de oeste a
leste, e a sensação de tédio que produziam no meu espírito. Ruas amarelas e
céus azuis. E, à medida que você se aproximava do centro da cidade, as ruas iam
perdendo esse amarelo ofensivo para se transformar em ruas cinzentas, ordenadas
e aceradas, se bem que eu soubesse que debaixo do cinza, por pouco que se
raspasse, achava-se o amarelo. E isso produzia não somente desalento em minha
alma mas também tédio, ou talvez o desalento tenha começado a se tornar tédio,
qualquer um sabe como é, o fato é que houve uma época de ruas amarelas e de
céus azul-luminosos e de tédio profundo em que cessou minha atividade de poeta,
melhor dizendo, minha atividade de poeta foi objeto de uma mutação perigosa,
pois o que se chama de escrever eu continuava fazendo, mas escrevia poemas
repletos de insultos, blasfêmias e coisas piores que tinha o bom senso de
destruir mal amanhecia, sem mostrá-los a ninguém, embora então muitos tivessem
se sentido honrados com tal distinção, poemas cujo sentido último, ou o que eu
julgava ver neles como sentido último, precipitava-me num estado de
perplexidade e comoção que durava o dia todo. E esse estado de perplexidade e
comoção coexistia com um estado de tédio e abatimento. O tédio e o abatimento
eram grandes. A perplexidade e a comoção eram pequenas e viviam incrustadas em
algum canto do estado geral de tédio e abatimento. Como uma ferida dentro de
outra ferida. Então parei de dar aulas. Parei de rezar missa. Parei de ler o
jornal toda manhã e de comentar as notícias com meus irmãos. Parei de escrever
com clareza minhas resenhas literárias. (Embora não as tenha interrompido.)
Alguns poetas se aproximaram de mim e perguntaram o que estava acontecendo
comigo. Alguns sacerdotes se aproximaram de mim e perguntaram o que perturbava
meu espírito. Confessei-me e rezei. Mas minha cara de insone me traía. De fato,
naqueles dias eu dormia pouquíssimo, às vezes três horas, às vezes duas. De
manhã me dedicava a caminhar da casa paroquial aos terrenos baldios, dos
terrenos baldios aos povoados, dos povoados ao centro de Santiago. Uma tarde
dois meliantes me assaltaram. Não tenho dinheiro, filhos, disse a eles. Claro
que tem, padre veado, responderam os assaltantes. Acabei entregando minha
carteira e rezando por eles, mas não muito. O tédio que sentia era feroz. O
abatimento não ficava atrás. A partir desse dia, porém, meus passeios mudaram
de rota. Escolhi bairros menos perigosos, escolhi bairros de onde pudesse
contemplar a magnificência da cordilheira, quando nesta cidade ainda era
possível contemplar a cordilheira em qualquer temporada, sem que o manto da
poluição a ocultasse. Passeava, passeava, às vezes tomava um ônibus e
continuava passeando com a cabeça grudada no vidro das janelas, às vezes tomava
um táxi e continuava passeando entre o abominável amarelo e o abominável
azul-luminoso do meu tédio, do centro à casa paroquial, da casa paroquial a Las
Condes, de Las Condes a Providencia, de Providencia à praça Itália e ao Parque
Florestal, depois de volta ao centro, de volta à casa paroquial, minha batina
surrada pelo vento, minha batina, que era como minha sombra, minha bandeira
negra, minha música ligeiramente engomada, roupa limpa, escura, poço onde os
pecados do Chile afundavam e não saíam mais. Mas tanto revoar era inútil. O
tédio não diminuía, pelo contrário, em certos meios-dias ficava insuportável e
me enchia a cabeça de idéias disparatadas. Às vezes, tremendo de frio,
aproximava-me de um bar e pedia uma Bilz. Sentava num tamborete alto e
contemplava com olhos de carneiro degolado as gotas d'água que escorriam na
superfície da garrafa, enquanto dentro de mim a voz da ojeriza me preparava
para a contemplação improvável de uma gota que, desafiando as leis naturais, subisse
pela superfície até chegar à boca da garrafa. Então eu fechava os olhos e
rezava, ou tentava rezar, enquanto meu corpo era sacudido por calafrios e as
crianças e os adolescentes corriam de um lado para o outro da praça de Armas,
aguilhoados pelo sol estivai, e as risadas em surdina que chegavam de toda
parte se convertiam no comentário mais certeiro da minha derrota. Depois bebia
uns goles da Bilz gelada e saía para continuar a caminhada. Foi por aqueles
dias que conheci o sr. Odem e mais tarde o sr. Oidó. Os dois dirigiam, para um
senhor estrangeiro que nunca tive o prazer de conhecer, uma empresa de
exportação e importação. Creio que enlatavam machas,[2]
que exportavam para a França e para a Alemanha. Encontrei o sr. Odem (ou
o sr. Odem encontrou a mim) numa rua amarela. Eu ia morto de frio, e ouvi
alguém me chamar. Ao me virar, eu o vi: um homem de meia-idade, estatura
normal, nem magro nem esquelético, com uma cara comum onde apenas predominavam
um pouco mais os traços indígenas do que os traços europeus, vestindo um terno
claro, com um chapéu elegantíssimo, fazendo-me sinal no meio da rua amarela, a
não muita distância, enquanto no fundo a terra reverberava em sucessivas placas
de vidro ou de plástico superpostas. Nunca o vira antes, mas ele parecia ter me
conhecido a vida toda. Disse que quem lhe falara de mim foram o padre Garcia
Errázuriz e o padre Munoz Laguía, os quais eu tinha em alta conta e de cujos
favores gozava, e que esses sábios varões haviam me recomendado fervorosamente,
sem reservas, para uma delicada missão na Europa, sem dúvida pensando que uma
viagem prolongada pelo Velho Continente era a coisa mais indicada para me
restituir um pouco da alegria e da energia que eu havia perdido e a olhos
cistos continuava perdendo, como uma ferida que não quer cicatrizar e acaba
causando a morte, pelo menos a morte moral, de quem a tem. No início me mostrei
perplexo e reticente, pois os interesses do sr. Odem não podiam ser mais
diferentes dos meus, mas aceitei entrar no seu carro e me deixar levar até um
restaurante da rua Banderas, um lugar decadente chamado Mi Oficina, onde o sr.
Odem, sem abrir o jogo sobre o que de fato o levara a me procurar, dedicou-se a
falar de gente que eu conhecia, entre eles Farewell e vários poetas da nova
lírica chilena que eu freqüentava na época, numa tentativa de me fazer saber
que ele estava a.par de mais de um aspecto do meu mundo, não somente o
eclesiástico mas também o das afinidades eletivas, e até o do trabalho, pois
também citou o redator-chefe do jornal em que eu publicava minhas crônicas. Era
evidente, contudo, que conhecia a todos de maneira superficial. Depois ò sr.
Odem trocou algumas palavras com o dono do Mi Oficina, e logo em seguida saímos
apressadamente do restaurante, sem que de modo algum se esclarecesse o motivo
da retirada, e passeamos de braço dado pelas ruas das vizinhanças até chegar a
outro restaurante, este muito menor e menos lúgubre, onde o sr. Odem foi
recebido quase como se fosse o dono e onde comemos até nos fartar, sem nos
importar com o calor que fazia lá fora e certamente não recomendava a ingestão
de tantos e tão variados petiscos. O café, ele insistiu que tomássemos no
Haiti, que é um bar infecto onde se junta toda a gentinha que trabalha no
centro de Santiago, subgerentes, subdelegados, vice-administradores,
vice-diretores, e onde, ainda por cima, consideram de bom gosto beber em pé,
encostados no balcão ou espalhados pela amplitude do lugar, que é grande e na
minha memória tem nas laterais duas grandes vidraças, as quais vão do teto
quase até o chão, de tal modo que os que estão em pé lá dentro, com suas
xícaras de café numa das mãos e suas pastas e maletas deslustradas na outra,
servem de espetáculo para os transeuntes, a quem é humanamente impossível
passar pelo estabelecimento mencionado sem olhar, nem que com o rabo do olho,
para a massa de homens que se amontoam ali dentro, numa lendária falta de
comodidade. Foi para esse antro que me vi arrastado, eu, um homem que já tinha
de certo modo um nome, que na verdade tinha dois nomes, e renome, alguns
inimigos e muitos amigos, e, embora tenha querido protestar, negar-me, o sr.
Odem sabia ser persuasivo quando queria. Enquanto esperava, amuado num canto e
sem poder tirar os olhos das vidraças do Haiti, que meu anfitrião voltasse do
balcão com dois cafés fumegantes, os melhores de Santiago segundo o populacho,
pus-me a pensar no tipo de negócio que o já citado cavalheiro queria me propor.
Depois o sr. Odem retornou, ficou a meu lado, e nos pusemos a tomar, em pé, o
café. Lembro que falou. Falou e sorriu, mas não consegui ouvir nada, já que as
vozes dos vice-secretários troavam no recinto do Haiti sem deixar espaço para uma
só voz a mais. Poderia ter me inclinado, posto o ouvido junto dos lábios do meu
interlocutor, como faziam os demais fregueses, mas preferi me abster. Fingi
entender e deixei meu olhar vagar pelo local carente de assentos. Alguns homens
me retribuíram o olhar. No semblante de alguns julguei descobrir uma dor
imensa. Os porcos também sofrem, disse comigo mesmo. Ato contínuo, arrependi-me
desse pensamento. Os porcos sofrem, sim, e sua dor os enobrece e purifica. Uma
lanterna se acendeu dentro da minha cabeça ou talvez dentro da minha piedade:
os porcos também eram um cântico à glória do Senhor, se não um cântico, o que
provavelmente era exagero, pelo menos um cantarolar, uma cantilena, uma trova
que celebrava todas as coisas vivas. Tentei discernir alguma conversa. Foi
impossível. Só ouvi palavras isoladas, o tom chileno, palavras que nada
significavam mas continham em si mesmas a platitude e o desespero infinito dos
meus compatriotas. Depois o sr. Odem me pegou pelo braço, e, sem saber como,
vi-me outra vez na rua, andando ao lado dele. Vou lhe apresentar meu sócio, o
sr. Oidó, disse. Meus ouvidos zumbiam. Tive a impressão de que escutava pela
primeira vez. Andamos por uma rua amarela. Não havia muita gente, mas, de vez
em quando, nas entradas dos prédios se escondia algum homem de óculos escuros,
alguma mulher de lenço na cabeça. O escritório de importação e exportação
ficava no quarto andar. O elevador não funcionava. Um pouco de exercício não
vai nos fazer mal, é bom para a digestão, opinou o sr. Odem. Segui-o. Na
recepção não havia ninguém. A secretária saiu para almoçar, disse o sr. Odem.
Fiquei calado, espiando, enquanto meu mecenas dava umas pancadinhas com a
segunda falange do dedo médio nos vidros foscos da sala do sócio. Uma voz
estridente mandou entrar. Entremos, disse-me o sr. Odem. O sr. Oidó estava
sentado atrás de uma mesa metálica e, ao ouvir meu nome, levantou, contornou a
mesa e me cumprimentou efusivamente. Era magro e louro, de pele pálida,
avermelhada nos pômulos, como se de tempos em tempos fizesse fricções com
lavanda. Mas não recendia a lavanda. Convidou-nos a sentar e, depois de me
examinar de cima a baixo, voltou ao seu lugar atrás da mesa. Sou .o sr. Oidó,
disse-me então, Oidó, e não Oído,[3]
Claro, disse eu. O senhor é o padre Urrutia Lacroix. O próprio, disse eu. A meu
lado, o sr. Odem sorria e assentia silenciosamente. Urrutia é um sobrenome de
origem basca, não é? Exatamente, disse eu. Lacroix é francês, claro. O sr. Odem
e eu assentimos em uníssono. Sabe de onde vem Oidó? Não tenho a menor idéia,
disse eu. Arrisque um lugar, disse ele. Da Albânia? Frio, frio, disse ele. Não
tenho a menor idéia, disse eu. Da Finlândia, disse ele. É um nome metade
finlandês metade lituano. Certamente, disse o sr. Odem. Numa época já remota os
lituanos e os finlandeses comerciavam bastante entre si, e para eles o mar
Báltico era uma espécie de ponte, de rio, de riacho, um riacho atravessado por
incontáveis pontes negras, procure imaginar. Imagino, disse eu. O sr. Oidó
sorriu. Imagina? Sim, imagino. Pontes negras, sim, senhor, murmurou o sr. Odem
a meu lado. E pequenos finlandeses e pequenos lituanos atravessando-as
incessantemente, disse o sr. Oidó. De dia e de noite. A luz da lua ou à luz de
humildes tochas. Sem enxergar nada, de memória. Sem sentir o frio que naquelas
latitudes penetra até o tutano, sem sentir nada, simplesmente vivos e em movimento.
Inclusive sem se sentirem vivos: em movimento, acoplados à rotina de atravessar
o Báltico numa ou noutra direção. Uma coisa natural. Uma coisa natural? Assenti
mais uma vez. O sr. Odem puxou um maço de cigarros. O sr. Oidó explicou que
fazia uns dez anos que parará de fumar para sempre. Recusei o cigarro que o sr.
Odem me oferecia. Perguntei em que consistia o trabalho que queriam me propor.
É mais que um trabalho, é uma bolsa, disse o sr. Oidó. Nós nos dedicamos aos
negócios de importação e exportação mas também lidamos com outros quesitos,
disse o sr. Odem. Concretamente, agora estamos trabalhando para a Casa de
Estudos do Arcebispado. Se eles têm um problema, nós procuramos a pessoa
adequada para solucioná-lo, disse o sr. Oidó. Se eles precisam de alguém rque
realize um estudo, arranjamos a pessoa indicada. Atende-(mos a uma necessidade,
escrutamos soluções. E eu sou a pessoa indicada?, perguntei. Ninguém reúne
tantos requisitos quanto o senhor, padre, disse o sr. Oidó. Gostaria que me
explicassem de que se trata, disse a eles. O sr. Odem olhou para mim de modo
estranho. Antes que protestasse, eu lhe disse que gostaria de tornar a ouvir a
proposta, mas dessa vez da boca do sr. Oidó. Este não se fez de rogado. A Casa
de Estudos do Arcebispado queria que alguém preparasse um trabalho sobre
conservação de igrejas. No Chile, como não podia deixar de ser, ninguém sabia
nada sobre esse assunto. Na Europa, pelo contrário, as pesquisas estavam muito
avançadas, e em certos casos já se falava de soluções definitivas para frear a
deterioração das casas de Deus. Meu trabalho consistiria em ir lá, visitar as
igrejas de referência em matéria de soluções antidesgaste, cotejar os distintos
sistemas, escrever um relatório e voltar. Quanto tempo? Podia passar um ano
percorrendo diversos países europeus. Se no fim de um ano meu trabalho não
estivesse concluído, o prazo poderia ser prorrogado para até um ano e meio.
Pagariam todo mês meu salário completo, mais uma ajuda de custo correspondente
aos gastos extras que teria na Europa. Podia dormir em hotéis e nos albergues
paroquiais espalhados por toda a geografia do Velho Continente. Claro, o
trabalho parecia ter sido pensado ex professo para mim. Aceitei. Nos dias
seguintes vi com freqüência o sr. Oidó e o sr. Odem, que se encarregaram dos
papéis necessários para minha estada na Europa. Mas não posso dizer que tenha
estreitado laços com eles. Eram eficientes, disso logo me.dei conta, mas
careciam de sutileza. Também não sabiam nada de literatura, salvo dois dos
primeiros poemas de Neruda, que podiam e costumavam recitar de cor. Mas sabiam
solucionar problemas de ordem administrativa que me pareciam insolúveis, e
trataram de aplanar o caminho para meu novo destino. A medida que se aproximava
o dia da minha partida, fui ficando cada vez mais nervoso. Preenchi o tempo me
despedindo dos amigos, que não acreditavam em tanta sorte. Cheguei a um acordo
com o jornal para continuar mandando da Europa minhas resenhas e crônicas
literárias. Uma manhã me despedi da minha já idosa mãe e tomei o trem para
Valparaíso, onde embarquei no Donizetti, navio de bandeira italiana que
fazia a rota Gênova—Valparaíso — Gênova. A viagem foi lenta e reparadora, e nela
não faltaram amizades, que duram até hoje, se bem que em sua faceta mais
inconsistente e educada, isto é, no envio pontual de cartões de boas-festas.
Fizemos escalas em Arica, onde fotografei, do convés, nosso heróico morro, em
El Callao, em Guayaquil (ao passar a linha do equador, tive o prazer de oficiar
uma missa para todos os passageiros), em Buena-ventura, onde li, à noite, o
navio ancorado no meio das estrelas, o Noturno de José Asunción Silva,
uma pequena homenagem às letras colombianas que foi aplaudida sem reservas, até
mesmo pela oficialidade italiana, a qual não entendia nada de espanhol mas
soube apreciar a profunda musicalidade do verbo do vate suicida, no Panamá,
cintura da América, em Cristóbal e em Colón, cidade dividida onde uns moleques
tentaram em vão me roubar, em Maracaibo, trabalhadora e com cheiro de petróleo,
depois cruzamos o oceano Atlântico, onde oficiei, a pedido geral, outra missa
para todos os passageiros e onde tivemos três dias de tormenta, mar revolto, e
muita gente quis se confessar, depois fizemos escala em Lisboa, onde desci e
rezei na primeira igreja do porto, depois o Donizetti atracou em Málaga
e em Barcelona, e numa manhã de inverno finalmente chegamos a Gênova, onde me
despedi dos meus novos amigos e oficiei uma missa para alguns deles na sala de
leitura do navio, uma sala com assoalho de carvalho, paredes de teca, um grande
lustre de cristal no teto e poltronas macias em que eu havia passado tantas
horas de felicidade, imerso na leitura dos clássicos gregos, dos clássicos
latinos e dos contemporâneos chilenos, recuperada por fim minha alegria de
leitor, recuperado meu instinto, totalmente curado, enquanto o navio sulcava o
mar, os crepúsculos marinhos, a noite atlântica insondável, e eu lia
comodamente sentado naquela sala de madeiras nobres, cheiro de mar e de alcoóis
fortes, cheiro de livros e de solidão, depois minhas jornadas felizes se
prolongaram até horas em que ninguém mais ousava passear pelos conveses do Donizetti,
salvo as sombras pecadoras que tomavam o cuidado de não me interromper, o
cuidado de não interferir nas minhas leituras, a felicidade, a felicidade, a
alegria recuperada, o sentido real da oração, minhas preces que se elevavam até
varar as nuvens, ali onde só existe música, aquilo a que chamamos o coro dos
anjos, um espaço não humano mas sem dúvida nenhuma o único espaço que podemos
habitar, ainda que conjecturalmente, nós, humanos, um espaço inabitável mas o
único espaço que vale a pena habitar, um espaço onde deixaremos de ser mas o
único espaço onde podemos ser o que na verdade somos, depois pisei em terra
firme, terra italiana, dei adeus ao Donizetti e me internei nos caminhos
da Europa, decidido a fazer um bom trabalho, com o espírito leve, cheio de
confiança, determinação e fé. A primeira igreja que visitei foi a de Santa
Maria da Dor Perpétua, em Pistóia. Esperava encontrar um velho pároco, mas
grande foi minha surpresa ao ser recebido por um sacerdote que ainda não tinha
completado trinta anos. Padre Pietro, era esse seu nome, explicou-me que o sr.
Odem lhe escrevera uma missiva avisando da minha chegada e que em Pistóia não
era a poluição ambiental o maior agente destruidor dos grandes monumentos
românicos ou góticos, mas a poluição animal, mais concretamente as cagadas das
pombas, cuja população, em Pistóia como em muitas outras cidades e povoados
europeus, tinha se multiplicado geometricamente. Para acabar com aquilo havia
uma solução infalível, arma em etapa experimental que ele me mostrou no dia
seguinte. Lembro que naquela noite dormi num quarto anexo à sacristia, e meu
sono foi marcado por despertares repentinos em que eu não sabia se estava no
navio ou no Chile e, se estava no Chile, vamos supor, tampouco sabia se estava
na casa da minha família, na casa do colégio ou na casa de um amigo, embora por
momentos me desse conta de que estava no quarto anexo a uma sacristia européia,
tampouco sabia com exatidão em que país da Europa se encontrava esse quarto e o
que eu fazia ali. De manhã fui acordado por uma empregada da paróquia.
Chamava-se Antonia e me disse: padre, dom Pietro está esperando o senhor, venha
logo ou vai provocar sua ira. Mal fiz minhas abluções, vesti a batina e saí ao
pátio da casa paroquial, lá estava o jovem padre Pietro, vestindo uma batina
mais reluzente que a minha, a mão esquerda metida numa grossa luva de couro e
metal, e no ar, no quadrado de céu que se erguia entre as paredes cor de ouro,
distingui a sombra de uma ave, e, quando me viu, padre Pietro disse: subamos ao
campanário, e eu, sem dizer nada, segui seus passos, e subimos até a torre do
campanário, ambos concentrados numa tarefa silenciosa e esforçada, e, quando
chegamos ao campanário, padre Pietro assobiou e agitou os braços, e a sombra do
céu desceu no campanário e pousou na luva que o italiano usava na mão esquerda,
e então, sem que ninguém me explicasse, entendi que a ave escura que sobrevoava
a igreja de Santa Maria da Dor Perpétua era um falcão que padre Pietro tinha se tornado um mestre de
falcoaria e que aquele era o recurso empregado na erradicação de pombas da
velha igreja, depois olhei, daquelas alturas, a escada que conduzia ao átrio e
à praça de lajotas junto da igreja, de cor magenta, e, apesar de ter olhado
bem, não vi uma só pomba. De tarde, padre Pietro me levou a outro lugar de
Pistóia. Ali não havia edifícios eclesiásticos, nem monumentos civis, nem nada
que fosse preciso defender da passagem do tempo. Fomos na camionete da
paróquia. Numa caixa ia o falcão. Quando chegamos ao nosso destino, padre
Pietro tirou o falcão da caixa e o lançou ao céu. Vi-o voar e cair sobre uma
pomba, e vi a pomba estremecer em pleno vôo. Abriu-se uma janela de um edifício
da assistência social, e uma velha gritou alguma coisa e nos ameaçou com o
punho cerrado. Padre Pietro achou graça. Nossas batinas ondulavam ao vento.
Voltando, disse que o falcão se chamava Turco. Depois peguei o trem e cheguei a
Turim, onde fui ver o padre Ângelo, da igreja de São Paulo do Socorro, também
douto nas artes da volataria. Seu falcão se chamava Otelo e aterrorizava as
pombas de toda Turim, embora não fosse o único falcão da cidade, conforme me
confessou padre Ângelo, que tinha motivos sólidos para desconfiar que em algum
bairro desconhecido de Turim, provavelmente na zona sul, vivia outro falcão e
que Otelo havia por vezes cruzado com o outro em suas viagens aéreas. Os dois
rapaces caçavam pombas e, em princípio, não tinham por que temer um ao outro,
mas padre Ângelo pensava que não estava longe o dia do enfrentamento dos dois
falcões. Permaneci mais dias em Turim do que em Pistóia. Depois tomei o trem
noturno com destino a Estrasburgo. Lá padre Joseph tinha um falcão chamado
Xenofonte, o rapace era de um negro azulado, e às vezes padre Joseph dizia a
missa com o falcão pousado na parte mais alta do órgão, sobre um tubo dourado,
e eu, que às vezes ajoelhava ouvindo a palavra do Senhor, sentia na nuca o
olhar do falcão, seus olhos fixos, e me distraía, pensava em Bernanos e em
Mauriac, que padre Joseph lia incessantemente, pensava também em Graham Greene,
que só eu lia, padre Joseph não, porque os franceses só lêem os franceses, se
bem que sobre Greene falamos uma vez até tarde e não chegamos a um consenso.
Também falamos sobre Burson, sacerdote e mártir no Magreb, sobre cuja vida e
apostolado Vuillamin tinha escrito um livro que padre Joseph me emprestou, e
também sobre o abbé Pierre, um padreco mendigo que agradava a padre
Joseph nos domingos e desagradava nas segundas. Depois parti de Estrasburgo e
fui para Avignon, à igreja de Nossa Senhora do Meio-Dia, onde era pároco o
padre Fabrice, cujo falcão se chamava Ta Gueule e era conhecido nos arredores
por sua voracidade e ferocidade, e com padre Fabrice tive tardes inesquecíveis,
enquanto Ta Gueule voava e já não desfazia somente bandos de pombas mas também
de estorninhos, que naqueles dias distantes e felizes abundavam em terras
provençais, as terras que percorreu Sordel, Sordello, que Sordello?, e Ta
Gueule se punha a voar e se perdia entre as nuvens baixas, as nuvens que
baixavam das colinas manchadas e ao mesmo tempo puras de Avignon, e, enquanto
padre Fabrice e eu conversávamos, de repente Ta Gueule tornava a aparecer como
um raio ou como a abstração mental de um raio para cair sobre os enormes bandos
de estorninhos que apareciam pelo oeste como enxames de moscas, enegrecendo o
céu com sua revoada errática, e após alguns minutos a revoada dos estorninhos
se ensangüentava, se fragmentava e se ensangüentava, e então o entardecer dos
arredores de Avignon se tingia de um vermelho intenso, como o vermelho dos
crepúsculos que você vê da janela de um avião, ou o vermelho dos amanheceres,
quando você acorda suavemente com o ruído dos motores assobiando nos ouvidos,
corre a cortininha do avião e distingue no horizonte uma linha vermelha como
uma veia, a femoral do planeta, a aorta do planeta, que pouco a pouco vai
inchando, essa veia de sangue, foi a que vi nos céus de Avignon, o vôo
ensangüentado dos estorninhos, os movimentos como de paleta de pintor
expressionista abstrato de Ta Gueule, ah, a paz, a harmonia da natureza que em
nenhum lugar é tão evidente nem tão explícita como em Avignon, depois padre
Fabrice assobiava, e esperávamos um tempo indefinível, medido unicamente pelas
batidas do nosso coração, até nosso trêmulo falcão pousar no seu braço. Depois
peguei o trem, parti de Avignon com grande tristeza e cheguei a terras de
Espanha, e claro que o primeiro lugar em que me apresentei foi Pamplona, onde
se cuidava das igrejas com outros , métodos que não me interessavam, ou
simplesmente não se cuidava delas, mas eu tinha de cumprimentar os irmãos da Obra,
que me apresentaram aos editores da Obra, a diretores de colégio da Obra, ao
reitor da Universidade, que também pertencia à Obra, e todos se mostraram
interessados no meu trabalho de crítico de literatura, no meu trabalho de poeta
e no meu trabalho de docente, e me propuseram publicar um livro, são assim
generosos os espanhóis, e formais também, tanto que no dia seguinte assinei um
contrato, depois me entregaram uma carta endereçada a mim, escrita pelo sr.
Odem, na qual ele me perguntava que tal a Europa, que tal o clima, a comida, os
monumentos históricos, uma carta ridícula que, porém, parecia encobrir outra
carta, ilegível, mais séria, que despertou em mim grande preocupação, apesar de
eu não saber o que dizia a carta criptografada nem ter plena segurança de que
realmente existia, entre as palavras da carta ridícula, uma carta
criptografada. Depois parti de Pamplona, não sem antes receber abraços,
recomendações e todo tipo de despedidas amistosas, e cheguei a Burgos, onde me
esperava o padre Antônio, um padre velhinho que tinha um falcão chamado Rodrigo
que não caçava pombas, em parte porque a idade de padre Antônio não lhe
permitia acompanhar seu açor nas caçadas, em parte porque ao entusiasmo inicial
do pároco se seguiu um período de dúvidas acerca da conveniência de se desfazer
por métodos tão expeditos daquelas aves que, apesar das suas cagadas, também
eram criaturas de Deus. De modo que, quando cheguei a Burgos, o falcão só comia
carne picada ou moída e vísceras, que padre Antônio ou sua criada compravam no
mercado, fígado, coração, cabeça, pescoço, e a inatividade o havia reduzido a
um estado lamentável, similar em decrepitude ao de padre Antônio, cujas
bochechas estavam mordidas pelas dúvidas e pelo arrependimento fora de hora,
que é o pior dos arrependimentos, e, quando cheguei a Burgos, padre Antônio
jazia em seu leito, um catre de cura pobre, coberto por uma manta de pano
grosseiro, num quarto grande, de pedra, e o falcão estava num canto, tiritando
de frio, de carapuça, sem o menor indício da elegância que eu tinha visto em
terras de Itália e de França, um pobre falcão e um pobre cura consumindo-se
ambos, e padre Antônio me viu e tratou de levantar apoiando-se num cotovelo,
como eu faria anos mais tarde, tempos mais tarde, dois ou três minutos mais
tarde, ante a aparição repentina do jovem envelhecido, e vi o cotovelo e o
braço de padre Antônio, magro como uma coxa de galinha, e padre Antônio me
disse que tinha pensado, pensei, ele disse, que talvez não fosse uma boa idéia
esta, dos falcões, porque, embora preservem as igrejas do efeito corrosivo e, a
longo prazo, destruidor das cagadas das pombas, não havia que esquecer que as
pombas eram como o símbolo terreno do Espírito Santo, não é?, e que a Igreja
católica podia prescindir do Filho e do Pai mas não do Espírito Santo, muito
mais importante do que toda a freguesia imaginava, mais que o Filho, que morreu
na cruz, e mais que o Pai, criador das estrelas, da terra e de todo o universo,
e então eu toquei com a ponta das mãos a testa e as têmporas do cura burgalês,
e imediatamente percebi que ele estava com pelo menos quarenta graus de febre,
chamei sua empregada e mandei que fosse buscar um médico, e, enquanto esperava
o médico aparecer, distraí-me contemplando o falcão, que parecia morrer de frio
em seu atril, de carapuça, e não me pareceu bom que ficasse assim, de modo que,
depois de cobrir padre Antônio com outra manta que encontrei na sacristia,
procurei a luva, peguei o falcão, fui ao pátio, contemplei a noite cristalina e
fria, tirei a carapuça do falcão e lhe disse: voe, Rodrigo, e Rodrigo
empreendeu o vôo à terceira ordem, e o vi se elevar com uma força cada vez
maior, suas asas produziram um ruído de hélices metálicas e me pareceram
enormes, então soprou um vento como que ciclônico, o falcão se inclinou em seu
vôo vertical, minha batina levantou como uma bandeira pletórica de fúria, e
lembro que gritei então mais uma vez voe, Rodrigo, depois ouvi um vôo plural e
insano, e as pregas da batina cobriram meus olhos enquanto o vento limpava a
igreja e seus arredores, e, quando consegui tirar do rosto minha carapuça
particular, distingui, vultos informes no solo, os corpinhos ensangüentados de
várias pombas, que o falcão havia depositado aos meus pés ou num raio à minha
volta de não mais de dez metros, antes de desaparecer, pois o fato é que
naquela noite Rodrigo desapareceu nos céus de Burgos, onde dizem que há outros
falcões que se alimentam de passarinhos, e talvez a culpa tenha sido minha,
pois eu deveria ter ficado no pátio da igreja chamando-o, e então o rapace
talvez houvesse voltado, mas uma campainha soava insistentemente nas
profundezas da igreja, e eu soube, quando por fim pude ouvi-la, que se tratava
do médico e da criada, e abandonei meu posto e fui abrir, e, quando voltei ao
pátio, o falcão não estava mais lá. Naquela noite padre Antônio morreu, eu
abençoei sua alma e cuidei das coisas práticas até o dia seguinte, quando
chegou outro padre. O novo padre não deu pela falta de Rodrigo. A criada,
talvez sim, e olhou para mim como que dizendo que ela não tinha nada a ver com
isso. Talvez tenha pensado que eu havia soltado o falcão depois da morte de
padre Antônio, ou talvez tenha pensado que eu havia matado o falcão seguindo as
instruções de padre Antônio. Em todo caso não disse nada. No dia seguinte, fui
embora de Burgos e estive em Madri, onde não se preocupavam com a deterioração
das igrejas mas tratei de outros problemas. Depois peguei o trem e viajei para
Namur, na Bélgica, onde o padre Charles, da igreja de Nossa Senhora dos
Bosques, tinha um falcão chamado Ronnie, fiz boa amizade com padre Charles, com
quem costumava sair de bicicleta para passear pelos bosques que circundavam a
cidade, provido cada um de uma cesta onde levávamos frios e sempre uma garrafa
de vinho, e uma tarde até me confessei com padre Charles à margem de um rio,
afluente de um rio maior, entre a relva, as flores silvestres e as grandes
azinheiras, mas não falei nada de padre Antônio nem do seu falcão Rodrigo, que
eu tinha perdido naquela noite diamantina e irremediável de Burgos. Depois
peguei o trem, despedi-me do esplêndido padre Charles e rumei para
Saint-Quentin, na França, onde me aguardava o padre Paul, da igreja de São
Pedro e São Paulo, uma pequena jóia gótica, e aconteceu comigo, com padre Paul
e seu falcão Febre uma coisa divertida e curiosa, pois uma manhã saímos para
limpar o céu de pombas, mas não havia pombas, para desgosto do meu anfitrião,
que era jovem e estava orgulhoso do seu animal, considerado por ele o melhor
dos rapaces, e a praça da igreja de São Pedro e São Paulo ficava perto da praça
da Prefeitura, onde ouvíamos um murmúrio que não agradava a padre Paul, e lá
estávamos ele, eu e Febre esperando a hora, quando de repente vimos uma pomba
alçar vôo por cima dos telhados vermelhos que circundavam a praça, e padre Paul
soltou seu falcão, e este instantaneamente deu conta da pomba que provinha da
praça da Prefeitura e parecia rumar para a torre maior da pequena e belíssima
igreja de São Pedro e São Paulo, a pomba caiu fulminada por Febre, então se
ergueu um murmúrio estupefato na praça da Prefeitura de Saint-Quentin, e padre
Paul e eu, em vez de fugirmos, deixamos para trás a praça da igreja e dirigimos
nossos passos para a praça da Prefeitura, e lá estava a pomba, que era branca,
ensangüentada agora nas pedras da rua, havia muita gente à sua volta, inclusive
o prefeito de Saint-Quentin e uma numerosa representação de esportistas, e só
então compreendemos que a pomba que Febre eliminara era o símbolo de uma
manifestação atlética, que os atletas estavam indignados ou compungidos, assim
como as senhoras da sociedade de Saint-Quentin, madrinhas da corrida, que
tinham tido a idéia de iniciá-la com o vôo de uma pomba, e também estavam
indignados os comunistas de Saint-Quentin, que haviam apoiado a idéia das principais
senhoras do lugar, se bem que para eles aquela pomba agora morta e antes viva e
voadora não era a pomba da concórdia nem da paz no esforço esportivo, mas a
pomba de Picasso, uma ave de dupla intenção, em poucas palavras todas as forças
vivas estavam indignadas, menos as crianças, que procuravam maravilhadas a
sombra de Febre no céu e se aproximaram de padre Paul para lhe perguntar
detalhes pseudotécnicos ou pseudocientíficos sobre sua portentosa ave, e padre
Paul, com um sorriso nos lábios, pediu perdão aos presentes, mexeu as mãos como
dizendo desculpem, errar, todo mundo erra, depois tratou de satisfazer as
crianças com respostas às vezes exageradas mas sempre cristãs. Depois fui para
Paris, onde permaneci cerca de um mês escrevendo poesia, freqüentando museus e
bibliotecas, visitando igrejas que me enchiam os olhos de lágrimas, de tão
bonitas que eram, esboçando nas horas vagas meu relatório sobre a proteção de
monumentos de interesse nacional, com especial ênfase no uso de falcões,
mandando para o Chile minhas crônicas literárias e resenhas, lendo livros que
me mandavam de Santiago, comendo e passeando. De vez em quando, e sem quê nem
pra quê, o sr. Odem me mandava uma cartinha. Uma vez por semana eu ia à
embaixada chilena, onde costumava ler os jornais da pátria e conversar com o
adido cultural, um sujeito simpático, muito chileno, muito cristão, não muito
culto, que aprendia francês fazendo as palavras cruzadas do Le Figaro. Depois
viajei para a Alemanha, percorri a Baviera, estive na Áustria, na Suíça. Voltei
à Espanha. Percorri a Andaluzia. Não gostei muito. Estive novamente em Navarra.
Esplêndida. Viajei por terras galegas. Estive em Astúrias e nas Vascongadas.
Peguei um trem com destino à Itália. Fui a Roma. Ajoelhei diante do Santo
Padre. Chorei. Tive sonhos inquietantes. Via mulheres rasgando as roupas. Via
padre Antônio, o cura de Burgos, que, antes de morrer, abria um olho e me
dizia: a coisa está feia, meu amigo. Via um bando de falcões, milhares de
falcões voando a grande altura por cima do oceano Atlântico, rumo à América. As
vezes o sol se enegrecia nos meus sonhos. Outras vezes aparecia um padre
alemão, muito obeso, e me contava uma piada. Dizia: padre Lacroix, vou lhe
contar uma piada. O papa estava com um teólogo alemão, conversando tranqüilamente
num dos cômodos do Vaticano. De repente aparecem dois arqueólogos franceses,
muito excitados e nervosos, e dizem ao Santo Padre que acabam de voltar de
Israel e que trazem duas notícias, uma muito boa e a outra bem ruim. O papa
suplica que falem logo de uma vez, que não o deixem aflito. Os franceses,
atropelando-se, dizem que a boa notícia é que encontraram o Santo Sepulcro. O
Santo Sepulcro?, diz o papa. O Santo Sepulcro. Sem sombra de dúvida. O papa
chora de emoção. Qual é a má notícia?, pergunta, enxugando as lágrimas. Que no
interior do Santo Sepulcro encontramos o cadáver de Jesus Cristo. O papa
desmaia. Os franceses correm para reanimá-lo. O teólogo alemão, que é o único
tranqüilo, diz: ah, mas então Jesus Cristo existiu mesmo? Sordel, Sordello,
esse Sordello, o mestre Sordello. Um dia decidi que era hora de retornar ao
Chile. Voltei de avião. A situação na pátria não era boa. Você não deve sonhar,
mas ser conseqüente dizia comigo mesmo. Você não deve se perder em busca de uma
quimera, mas ser patriota, dizia comigo mesmo. No Chile as coisas não iam bem.
Para mim as coisas iam bem, mas pata a pátria não iam bem. Não sou um
nacionalista exacerbado, mas sinto um amor autêntico pelo meu país. Chile,
Chile. Como pudeste mudar tanto?, perguntava às vezes, debruçado na minha
janela aberta, olhando a reverberação de Santiago na distância. Que fizeram
contigo? Os chilenos enlouqueceram? De quem é a culpa? E outras vezes, enquanto
caminhava pelos corredores do colégio ou pelos corredores do jornal, dizia: Até
quando pensas continuar assim, Chile? Será que vais te transformar em outra
coisa? Num monstro que ninguém mais reconhecerá? Depois vieram as eleições, e
Allende ganhou. E eu me aproximei do espelho do meu quarto e quis formular a
pergunta crucial, a que tinha reservado para esse momento, e a pergunta se
negou a sair dos meus lábios exangues. Não havia quem agüentasse aquilo. Na
noite do triunfo de Allende fui a pé até
a casa de Farewell. Ele mesmo abriu a porta. Como estava envelhecido. Naquela
época, Farewell devia beirar os oitenta anos, talvez mais, e já não me tocava
na cintura nem nos quadris quando nos víamos. Entre, Sebastián, disse. Segui-o
até a sala. Farewell dava uns telefonemas. A primeira pessoa para quem ligou
foi Neruda. Não conseguiu falar com ele. Depois ligou para Nicanor Parra. A
mesma coisa. Deixei-me cair numa poltrona e cobri o rosto com as mãos. Ainda
ouvi como Farewell discava os números de quatro ou cinco outros poetas, sem
resultado. Servimo-nos de uns drinques. Sugeri que ligasse, se isso o
tranqüilizava, para alguns poetas católicos que nós que nós conhecíamos. Esses são os piores, disse Farewell,
devem estar todos na rua,
comemorando o triunfo de Allende. Passadas algumas horas, Farewell adormeceu
numa poltrona. Quis levá-lo para a cama, mas ele pesava muito e o deixei ali.
Quando, voltei para casa, pus-me a ler os gregos. Seja o que Deus quiser, disse
comigo mesmo. Vou reler os gregos. Comecei com Homero, como manda a tradição, e
continuei com Tales de Mileto, Xenófanes de Colofonte, Alcméon de Crotona,
Zenão de Eléia (como era bom), depois mataram um general do Exército favorável
a Allende, o Chile restabeleceu relações diplomáticas com Cuba, o censo
demográfico nacional registrou um total de oito milhões, oitocentos e oitenta e
quatro mil setecentos e sessenta e oito chilenos, a televisão começou a
transmitir a novela O direito de nascer, li Tirteu de Esparta, Arquíloco
de Paros, Sólon de Atenas, Hiponacte de Efeso, Estesícoro de Hímera, Safo de
Mitilene, Píndaro de Tebas (um dos meus favoritos), e o governo nacionalizou o
cobre, depois o salitre e o ferro, Pablo Neruda recebeu o Prêmio Nobel, Díaz
Casanova, o Prêmio Nacional de Literatura, Fidel Castro visitou o país, e
muitos acharam que ia ficar vivendo aqui para sempre, mataram o ex-ministro da
Democracia Cristã Pérez Zujovic, Lafourcade publicou Palomita blanca, fiz
uma boa crítica, quase uma glosa triunfal, embora no fundo eu soubesse que era
um romancinho que não valia nada, organizou-se a primeira marcha das panelas
contra Allende, li Esquilo, Sófocles, Eurípides, todas as tragédias, e Alceu de
Mitilene, Esopo, Hesíodo, Heródoto (que é mais um titã do que um homem), no
Chile houve escassez, inflação, mercado negro, filas compridas para conseguir
comida, a Reforma Agrária expropriou a fazenda de Farewell e muitas outras
fazendas, criaram a Secretaria Nacional da Mulher, Allende visitou o México e a
Assembléia das Nações Unidas em Nova York, houve atentados, li Tucídides, as
longas guerras de Tucídides, os rios e as planícies, os ventos e as mesetas que
cruzam as páginas obscurecidas pelo tempo, os homens de Tucídides, os homens
armados de Tucídides e os homens desarmados, os que apanham a uva e os que
escrutam de uma montanha o horizonte distante, esse horizonte onde eu estava
confundido com milhões de seres, à espera de nascer, esse horizonte que
Tucídides escrutou e onde eu tremia, também reli Demóstenes, Menandro,
Aristóteles e Platão (que sempre é proveitoso), houve greves, um coronel do
regimento blindado tentou dar um golpe, um cinegrafista morreu filmando sua
própria morte, depois mataram o ajudante-de-ordens naval de Allende, houve
distúrbios, palavras grosseiras, os chilenos blasfemaram, picharam as paredes,
depois quase meio milhão de pessoas desfilaram numa grande marcha de apoio a
Allende, depois veio o golpe de Estado, o levante, o pronunciamiento militar,
bombardearam La Moneda, e, quando terminou o bombardeio, o presidente se
suicidou e tudo acabou. Então eu fiquei quieto, com um dedo na página que
estava lendo, e pensei: que paz. Levantei, fui à janela: que silêncio. O céu
estava azul, um azul profundo e limpo, marcado aqui e ali por algumas nuvens.
Ao longe vi um helicóptero. Sem fechar a janela, ajoelhei e rezei, pelo Chile,
por todos os chilenos, pelos mortos e pelos vivos. Depois telefonei para
Farewell. Como se sente?, perguntei. Estou pulando de felicidade, respondeu. Os
dias que se seguiram foram estranhos, era como se todos nós houvéssemos
acordado de repente de um sonho para a vida real, embora por vezes a sensação
fosse diametralmente oposta, como se de repente todos estivéssemos sonhando.
Nosso dia-a-dia se desenrolava de acordo com esses parâmetros anormais: nos
sonhos tudo pode acontecer, e você aceita que tudo aconteça. Os
movimentos são diferentes. Nós nos movemos como gazelas ou como o tigre sonha
com as gazelas. Nós nos movemos como numa pintura de Vassarely. Nós nos movemos
como se não tivéssemos sombra e como se esse fato atroz não nos importasse.
Falamos. Comemos. Mas na realidade estamos tentando.Bão pensar que falamos, não
pensar que comemos. Uma noite fiquei sabendo que Neruda tinha morrido.
Telefonei para Farewell. Pablo morreu, disse. De câncer, de câncer, disse
Farewell. Sim, de câncer, disse eu. Vamos ao enterro? Eu vou, disse Farewell.
Vou com o senhor, disse eu. Quando desliguei o telefone, pareceu-me uma
conversa sonhada. No dia seguinte fomos ao cemitério. Farewell estava muito
elegante. Parecia um navio-fantasma, mas estava muito elegante. Vão devolver
minha fazenda, disse-me ao pé do ouvido. O cortejo fúnebre era numeroso, e, à
medida que caminhávamos, foi se juntando mais gente. Que rapaziada
bem-comportada, disse Farewell. Controle-se, disse eu. Olhei para o rosto dele:
Farewell ia piscando o olho para uns desconhecidos. Eram jovens e pareciam
mal-humorados, mas me pareceram surgidos de um sonho em que o mau humor e o bom
humor eram apenas acidentes metafísicos. Ouvi alguém, atrás de nós, reconhecer
Farewell e dizer é Farewell, o crítico. Palavras que saíam de um sonho e
entravam em outro sonho. Depois alguém se pôs a gritar. Um histérico. Outros
histéricos fizeram coro ao estribilho. Que ordinarices são essas?, perguntou
Farewell. Uns mal-educados, respondi, não se preocupe, estamos chegando ao
cemitério. E onde vai Pablo?, perguntou Farewell. Ali adiante, no caixão, disse
eu. Não seja idiota, disse Farewell, ainda não sou um velho gagá. Desculpe,
disse eu. Está desculpado, disse Farewell. Pena que os enterros não sejam mais
como antes, disse Farewell. E verdade, disse eu. Com panegíricos e despedidas
de todo tipo, disse Farewell. A francesa, disse eu. Eu teria escrito um
discurso precioso a Pablo, disse Farewell, e se pôs a chorar. Devemos estar
sonhando, pensei. Ao sairmos do cemitério, de braço dado, vi um sujeito dormindo
encostado num túmulo. Um tremor percorreu minha coluna vertebral. Os dias que
se seguiram foram bastante calmos, e eu estava cansado de ler tantos gregos.
Assim, voltei a freqüentar a literatura chilena. Tentei escrever um poema. No
início só saíam iambos. Depois não sei o que aconteceu comigo. De angelical,
minha poesia se tornou demoníaca. Senti-me tentado, em muitos entardeceres, a
mostrar meus versos ao meu confessor, mas não o fiz. Escrevia sobre mulheres
que eu humilhava impiedosamente, escrevia sobre invertidos, sobre crianças
perdidas em estações de trem abandonadas. Minha poesia sempre tinha sido, para
dizê-lo numa palavra, apolínea, e o que agora saía de mim era muito mais, para
tentar nomeá-lo de alguma maneira, dionisíaco. Mas na realidade não era poesia
dionisíaca. Nem demoníaca. Era raivosa. Que me haviam feito aquelas pobres
mulheres que apareciam nos meus versos? Porventura alguma tinha me enganado?
Que me haviam feito aqueles pobres invertidos? Nada. Nada. Nem as mulheres nem
os bichas. Muito menos, por Deus, as crianças. Por que, então, apareciam
aquelas desventuradas crianças emolduradas naquelas paisagens corruptas? Seria
alguma delas eu mesmo? Seriam os filhos que eu nunca ia ter? Será que eram os
filhos perdidos de outros seres perdidos que eu nunca conheceria? Mas por que
então tanta raiva? Minha vida cotidiana, entretanto, era tranqüilíssima. Falava
a meia-voz, nunca me irritava, era pontual e metódico. Toda noite rezava e
conciliava o sono sem problemas. Às vezes tinha pesadelos, mas naqueles dias,
uns mais, outros menos, todo mundo sofria um pesadelo de vez em quando. De
manhã, apesar de tudo, eu acordava descansado, com ânimo para enfrentar as
tarefas do dia. Uma manhã, justamente, disseram-me que tinha visitas esperando
na sala. Terminei de me lavar e desci. Vi o sr. Odem sentado num banco de
madeira apenso à parede. Em pé, estudando um quadro de um pintor autodenominado
expressionista (se bem que na realidade se tratasse de um impressionista),
estava o sr. Oidó, com as mãos cruzadas nas costas. Quando me viram, ambos
sorriram como se sorri a um velho amigo. Convidei-os para o café-da-manhã.
Surpreendentemente disseram que já fazia tempo que tinham tomado o
café-da-manhã, embora o relógio de parede marcasse apenas oito horas e alguns
minutos. Aceitaram tomar um chá comigo, só para acompanhar. Meu café-da-manhã
não consiste em muito mais que isso, disse-lhes, só um chá, torradas com
manteiga e geléia, e um suco de laranja. Um café-da-manhã equilibrado, disse o
sr. Odem. O sr. Oidó não disse nada. A empregada serviu o café-da-manhã, por
meu desejo expresso, no jardim-de-inverno da casa, com vista para o jardim e
para as árvores que tapam em parte os muros do colégio vizinho. Somos
portadores de uma proposta muito delicada, disse o sr. Odem. Assenti com a
cabeça e não disse nada. O sr. Oidó pegara uma das minhas torradas e passava
manteiga nela. Algo que exige a máxima reserva, disse o sr. Odem,
principalmente agora, nesta situação. Eu disse que sim, claro, que compreendia.
O sr. Oidó deu uma mordida na torrada e contemplou as três enormes araucárias
que se erguiam catedralescas no parque e eram o orgulho do colégio. O senhor
sabe, padre Urrutia, como são os chilenos, sempre tão enxeridos, digo isso sem
má intenção, que fique bem claro, mas são enxeridos como quê. Eu não disse nada.
O sr. Oidó acabou a torrada com três mordidas e começou a passar manteiga em
outra. Que quero lhe dizer com isso?, perguntou-se retoricamente o sr. Odem.
Que o assunto que nos trouxe aqui requer reserva absoluta. Eu disse que sim,
que compreendia. O sr. Oidó se serviu de mais chá e, com um estalo do polegar e
do dedo médio, chamou a empregada, para que trouxesse um pouco de leite. Que é
que o senhor compreende?, perguntou o sr. Odem, com um sorriso franco e amistoso.
Que exigem de minha parte a mais absoluta discrição, disse eu. Mais que isso,
disse o sr. Odem, muito mais, discrição superabsoluta, discrição e reserva
extraordinariamente absoluta. Teria gostado de corrigi-lo, mas não o fiz, pois
desejava saber o que é que ele , pretendia de mim. O senhor sabe algo de
marxismo?, perguntou o sr. Oidó, depois de limpar os lábios com o guardanapo.
Algo, sim, mas por motivos estritamente intelectuais, respondi. 'Quer dizer,
não há ninguém mais distante dessa doutrina do que eu, o que qualquer um pode
confirmar. Mas sabe ou não sabe? Apenas o necessário, disse eu, cada vez mais
nervoso. Há livros de marxismo na sua biblioteca?, perguntou o sr. Oidó. Meu
Deus, a biblioteca não é minha, a biblioteca é da nossa comunidade, suponho que
deve haver algum, mas só para consultas, para fundamentar algum trabalho
filosófico tendente a negar, justamente, o marxismo. Mas o senhor, padre
Urrutia, tem sua biblioteca própria, quer dizer, sua biblioteca pessoal e
privada, alguns livros aqui, no colégio, outros em sua casa, na casa da sua
mãe, ou estou enganado? Não, não está enganado, murmurei. E na sua biblioteca
privada há ou não há livros de marxismo?, perguntou o sr. Oidó. Por favor,
responda sim ou não, suplicou o sr. Odem. Sim, disse eu. Nesse caso, pode-se
afirmar que o senhor sabe algo ou mais que algo de marxismo?, perguntou o sr.
Oidó, cravando-me fixamente seu olhar escrutador. Olhei para o sr. Odem
buscando ajuda. Ele me fez, com os olhos, um sinal que não entendi: podia ser um
sinal de acatamento ou um sinal de cumplicidade. Não sei o que dizer, disse eu.
Diga algo, disse o sr. Odem. Os senhores me conhecem, não sou marxista, disse.
Mas conhece ou não conhece, digamos, as bases do marxismo?, perguntou o sr.
Oidó. Isso qualquer um sabe, disse eu. Ou seja, não é muito difícil aprender
marxismo, disse o sr. Oidó. Não, não é muito difícil, disse eu, tremendo da
cabeça aos pés e experimentando a sensação mais forte que nunca de coisa
sonhada. O sr. Odem me deu uma palmadinha na perna. O gesto foi carinhoso, mas
quase dei um salto. Se não é difícil aprender, também não deve ser difícil
ensinar, disse o sr. Oidó. Guardei silêncio até compreender que esperavam uma
palavra minha. Não, 4isse, não deve ser muito difícil ensinar. Mas nunca ensinei,
esclareci. Pois agora tem uma oportunidade, disse o sr. Oidó. E pn. serviço à
pátria, disse o sr. Odem. Um serviço que deve ser prestado na penumbra e na
mudez, longe do fulgor das medalhas, acrescentou. Falando às claras, um serviço
que deve ser levado a cabo com a boca fechada, disse o sr. Oidó. De bico
calado, disse o sr. Odem. Lábios selados, disse o sr. Oidó. Silencioso como um
túmulo, disse o sr. Odem. Nada de sair por aí se gabando disto ou daquilo, se é
que me entende, um modelo de discrição, disse o sr. Oidó. E em que consiste
esse trabalho tão delicado?, perguntei. Em dar umas aulas de marxismo, não
muitas, o suficiente para que certos cavalheiros a quem todos os chilenos
querem muito bem tenham uma idéia do que se trata, disse o sr. Odem,
aproximando a cabeça da minha e me despejando no nariz um bafo de esgoto. Não
pude evitar de franzir o cenho. Meu gesto de desagrado fez o sr. Odem sorrir.
Não quebre a cabeça, disse ele, o senhor nunca adivinharia de quem estamos
falando. E se eu aceitar, quando começariam as aulas?, porque o fato é que
agora estou com muitíssimo trabalho acumulado, disse eu. Não se faça de rogado
conosco, disse o sr. Oidó, é um trabalho que ninguém pode recusar. Que ninguém
ia querer recusar, disse o sr. Odem, conciliador. Considerei que o perigo havia
passado e que era hora de me mostrar duro. Quem são meus alunos?, perguntei. O
general Pinochet, disse o sr. Oidó. Engoli em seco. E quem mais? O general
Leigh, o almirante Merino e o general Mendoza, ora, quem mais poderia ser?,
disse, baixando a voz, o sr. Odem. Preciso me preparar, disse eu, não é uma
coisa que possa ser feita de improviso. As aulas têm de começar dentro de uma
semana, acha que dá tempo? Disse que sim, que o ideal teriam sido duas semanas
mas com uma eu me arranjaria. Depois o sr. Odem falou dos meus honorários. É um
serviço à pátria, disse, mas você também precisa comer. Provavelmente lhe dei
razão. Não lembro o que mais nos dissemos. A semana transcorreu imersa na mesma
atmosfera de sono tranqüilo das semanas precedentes. Certa tarde, quando saí da
redação do jornal, um automóvel me esperava. Fomos ao colégio buscar minhas
notas, depois o carro se perdeu na noite de Santiago. A meu lado, no banco
traseiro, ia um coronel, o coronel Pérez Larouche, que se encarregou de me
entregar um envelope, o qual eu não quis abrir, e voltou a insistir no que
haviam me pedido os srs. Odem e Oidó: discrição absoluta em tudo o que dizia
respeito ao meu novo trabalho. Garanti-lhe que podia contar com ela. Então não
se fala mais nisso, e aproveitemos a viagem, disse o coronel Pérez Larouche,
enquanto me oferecia um copo de uísque, que recusei. É por causa do hábito?,
perguntou. Só nesse momento me dei conta de que, ao chegar ao colégio, tinha
trocado o terno com que fora ao jornal pelo hábito de sacerdote. Neguei com a
cabeça. Pérez Larouche disse que conhecia vários padres bons de copo. Disse-lhe
que me parecia improvável que no Chile houvesse alguém, padre ou não, bom de
copo. Aqui somos, isso sim, ruins de copo. Como eu esperava, Pérez Larouche não
se mostrou de acordo. Enquanto eu o ouvia sem escutar, pus-me a pensar nos
motivos que tinham me levado a mudar de roupa. Será que pretendia aparecer, eu
também, de uniforme diante de meus ilustres alunos? Será que temia alguma coisa
e a batina era minha trincheira diante de um perigo certo e indiscernível? Quis
abrir as cortinas que velavam as janelas do carro, mas não pude. Uma vara
metálica tornava impossível corrê-las. É uma medida de segurança, disse Pérez
Larouche, que não parava de enumerar vinhos chilenos e bêbados chilenos
inacessíveis ao desalento, como se estivesse recitando, sem saber e
independentemente da sua vontade, um poema destrambelhado de Pablo de Rokha.
Depois o carro entrou num parque e parou diante de uma casa que tinha acesa
apenas a luz da porta principal. Segui Pérez Larouche. Ele se deu conta de que
eu procurava com o olhar os soldados da guarda e explicou que guarda boa é
aquela que não se vê. Mas tem guarda?, perguntei. Claro, e todos com o dedo no
gatilho. Alegra-me saber, disse. Entramos numa sala cujos móveis e paredes eram
de um branco ofuscante. Sente-se, disse Pérez Larouche, o que quer tomar? Um
chá, sugeri. Um chá, excelente, disse Pérez Larouche, e saiu do cômodo. Fiquei
sozinho, em pé. Tinha certeza de que me filmavam. Dois espelhos, em molduras de
madeira folheadas a ouro, eram perfeitos para esse fim. Ao longe ouvi vozes,
gente que discutia ou ria de uma piada. Depois, outra vez o silêncio. Ouvi
passos e uma porta se abrindo: um criado vestido de branco, com uma bandeja de
prata, serviu-me uma xícara de chá. Agradeci. Murmurou algo que não entendi e
desapareceu. Ao pôr açúcar no chá, vi meu rosto refletido na superfície. Quem
te viu, quem te vê, Sebastián, disse comigo mesmo. Tive vontade de atirar a
xícara numa das paredes impolutas, tive vontade de sentar com a xícara entre os
joelhos e chorar, tive vontade de ficar pequeno, mergulhar na infusão quente e
nadar até o fundo, onde descansavam como grandes pedras de diamante os grãos de
açúcar. Permaneci hierático, inexpressivo. Fiz cara de tédio. Mexi a xícara e
provei o chá. Bom. Bom chá. Bom para os nervos. Depois ouvi passos no corredor,
não no corredor por onde eu havia chegado, mas noutro, que desembocava numa
porta diante de mim. A porta se abriu, e entraram os ajudantes-de-ordens ou os
auxiliares, todos fardados, depois um grupo de assistentes ou de oficiais
jovens, depois fez sua aparição a Junta de Governo em peso. Levantei. De viés,
vi-me refletido num espelho. As fardas brilhavam, ora como cartões coloridos,
ora como um bosque em movimento. Minha batina negra, mais que ampla, pareceu
absorver num segundo toda a gama de cores. Naquela noite, a primeira, falamos
de Marx e Engels. Das primeiras obras de Marx e Engels. Depois comentamos o Manifesto
do Partido Comunista e a Mensagem do comitê central à Liga dos
Comunistas. Como leitura, deixei-lhes o Manifesto e Os conceitos
elementares do materialismo histórico, da nossa compatriota Marta
Harnecker. Na segunda aula, uma semana depois, falamos das Lutas de classes
na França de 1848 a 1850 e do Dezoito brumário de Luís Bonaparte, e
o almirante Merino perguntou se eu conhecia pessoalmente Marta Harnecker e o
que pensava dela. Respondi que não a conhecia pessoalmente, que era discípula
de Althusser (ele ignorava quem era Althusser; esclareci) e que havia estudado
na França, como muitos chilenos. É boa moça? Creio que sim, disse eu. Na
terceira aula voltamos ao Manifesto. Para o general Leigh, tratava-se de
um texto primitivo em estado puro. Não especificou mais. Achei que debochava, de
mim, mas não demorei a descobrir que falava sério. Tenho de pensar nisso, disse
comigo mesmo. O general Pinochet parecia muito cansado. Diferentemente do que
ocorrera nas duas ocasiões anteriores, vestia farda. Passou a aula toda caído
numa poltrona, tomando notas de vez em quando, sem tirar os óculos escuros.
Durante alguns minutos creio que adormeceu, firmemente aferrado à sua
lapiseira. A quarta aula só assistiram o general Pinochet e o general Mendoza.
Diante da minha indecisão, o general Pinochet ordenou que continuássemos como
se os outros dois estivessem ali, e de maneira simbólica estavam mesmo, porque
em meio ao resto dos participantes reconheci um capitão da Marinha e um general
da Força Aérea. Falei-lhes d'O capital (tinha preparado um resumo de
três páginas) e d'A guerra civil na França. O general Mendoza não fez
nenhuma pergunta ao longo de toda a aula, limitando-se a tomar notas. Na
escrivaninha havia vários exemplares d'Os conceitos elementares do
materialismo histórico, e, ao terminar a aula, o general Pinochet disse aos
presentes que pegassem um e levassem. Piscou o olho para mim e se despediu com
um aperto de mão. Nunca me parecera tão caloroso como dessa vez. Na quinta aula
falei de Salário, preço e lucro e voltei ao Manifesto. Passada
uma hora, o general Mendoza dormia profundamente. Não se preocupe, disse-me o
general Pinochet, venha comigo. Segui-o até uma porta-janela de onde se
abarcava o parque posterior da casa. Uma lua redonda cintilava na superfície
regular de uma piscina. Abriu a janela. Atrás de nós ouvi as vozes em surdina
dos generais falando de Marta Harnecker. Dos canteiros de flores provinha um
aroma delicioso que se difundia por todo o parque. Um passarinho cantou, e, ato
contínuo, do mesmo parque ou de um jardim vizinho, outro passarinho da mesma
espécie respondeu, depois ouvi um bater de asas que pareceu rasgar a noite, e,
em seguida, voltou, incólume, o silêncio profundo. Vamos dar uma volta, disse o
general. Como se ele fosse um mago, mal franqueamos a porta-janela e entramos
naquele jardim encantado, acenderam-se as luzes do parque, luzes disseminadas
aqui e ali com um gosto requintado. Falei então da Origem da família, da
propriedade privada e do Estado, escrita apenas por Engels, e a cada
explicação minha o general assentia, de quando em quando fazia perguntas
pertinentes, às vezes nós dois nos calávamos e admirávamos a lua, que vagava
solitária pelo espaço infinito. Talvez tenha sido essa visão que me levou a ter
a audácia de lhe perguntar se conhecia Leopardi. Disse que não. Perguntou quem
era. Paramos. A porta-janela, os outros generais contemplavam a noite. Um poeta
italiano do século XIX, disse-lhe. Esta lua, disse-lhe, se me permite o
atrevimento, meu general, faz-me evocar dois poemas dele, O infinito e Canto
noturno de um pastor errante da Ásia. O general Pinochet não expressou o
mais ínfimo interesse. Recitei, enquanto caminhava a seu lado, os versos d'O infinito, que sabia de cor. Boa poesia,
disse. Na sexta aula voltamos a estar todos: o general Leigh deu a impressão de
ser um aluno muito adiantado, o almirante Merino era antes de mais nada uma
pessoa cordial e de conversa refinada, o general Mendoza, como de hábito,
permaneceu em silêncio e se aplicou em tomar notas. Falamos de Marta Harnecker.
O general Leigh disse que essa senhora tinha amizade íntima com uns cubanos. O
almirante confirmou a informação. É possível?, perguntou o general Pinochet.
Pode ser possível uma coisa dessas? Estamos falando de uma mulher ou de uma
cadela? A informação está correta? Está, disse Leigh. Tive então a idéia de um
poema sobre uma mulher perdida, cujos primeiros versos e cuja idéia básica
memorizei aquela noite enquanto falava d'Os conceitos
elementares do materialismo histórico e voltava a insistir em alguns
pontos do Manifesto que eles não conseguiam entender completamente: Na
sétima aula falei de Lenin, Trotsky e Stalin, e das várias e antagônicas
tendências do marxismo no planeta. Falei de Mao, de Tito, de Fidel Castro.
Todos (se bem que o general Mendoza estivesse ausente na sétima aula) tinham
lido ou estavam lendo Os conceitos elementares do materialismo histórico, e,
quando a aula começou a esfriar, voltamos a falar de Marta Harnecker. Lembro
também, que falamos das virtudes militares de Mao. O general Pinochet disse
então que quem tinha talento como militar não era Mao mas outro chinês, cujos
nomes e sobrenomes impronunciáveis ele citou e eu, claro, não retive. O general
Leigh disse que Marta Harnecker provavelmente trabalhava para a Segurança de
Estado cubana. Está correta a informação? Está. Durante a oitava aula voltei a
falar de Lenin, e estudamos o Que fazer?, depois repassamos o Livro
vermelho de Mao (que Pinochet achou muito banal, muito simples), depois
voltamos a falar d'Os conceitos elementares do materialismo histórico, de
Marta Harnecker. Na nona aula ,fiz perguntas relacionadas a este último livro.
As respostas foram, em geral, satisfatórias. A décima aula foi a última. Só
estava presente o general Pinochet. Falamos de religião, e não de política.
Quando me despedi, deu-me um presente em seu nome e no dos outros membros da
Junta. Não sei por quê, eu tinha pensado que a despedida ia ser mais emotiva.
Não foi. Foi uma despedida de certo modo fria, corretíssima, condicionada aos imperativos
de um homem de Estado. Perguntei se as aulas haviam sido de alguma utilidade.
Claro, disse o general. Perguntei se estivera à altura do que se esperava de
mim. Vá com a consciência tranqüila, garantiu-me, seu trabalho foi perfeito. O
coronel Pérez Larouche me acompanhou até em casa. Quando cheguei, às duas da
manhã, depois de atravessar as ruas vazias de Santiago, a geometria do toque de
recolher, não consegui dormir, nem soube
o que fazer. Pus-me a andar pelo quarto enquanto uma maré crescente de imagens
e de vozes inundava meu cérebro. Dez aulas, dizia comigo mesmo. Na realidade,
só nove. Nove aulas. Nove lições. Pouca bibliografia. Terei trabalhado bem?
Terão aprendido alguma coisa? Terei ensinado algo? Fiz o que era para fazer?
Fiz o que devia fazer? O marxismo é um humanismo? E uma teoria demoníaca? Se
contasse aos meus amigos escritores o que havia feito, teria sua aprovação?
Alguns manifestariam uma rejeição absoluta ao que eu havia feito? Alguns
compreenderiam e perdoariam? Sabe um homem, sempre, o que está certo e o
que está errado? A certa altura das minhas reflexões me pus a chorar
desconsoladamente, estirado na cama, pondo a culpa das minhas desgraças
(intelectuais) nos srs. Odem e Oidó, que foram os que me introduziram naquela
empreitada. Depois, sem notar, adormeci. Naquela semana comi com Farewell. Já
não podia agüentar o peso, talvez fosse mais adequado dizer o movimento, as
oscilações, às vezes pendulares, às vezes circulares, da minha consciência, a
bruma fosforescente, mas de uma fosforescência apagada, como do pântano na hora
do ângelus, em que minha lucidez se movia, arrastando-me consigo. Assim,
enquanto tomávamos o aperitivo, eu falei. Contei-lhe, apesar das admoestações
de extrema reserva que me fizera o coronel Pérez Larouche, minha estranha
aventura como professor daqueles ilustres e secretos alunos. E Farewell, que
até então parecia pairar numa apatia monossilábica a que sua idade o levava com
freqüência cada vez maior, foi todo ouvidos e me rogou que lhe contasse a
história completa, sem omitir nada. E foi o que fiz, contei a forma como haviam
me contatado, a casa em Las Condes onde dei minhas aulas, a resposta positiva
dos meus alunos, receptivos como quê, o interesse deles, que não diminuía
embora algumas aulas tenham sido a altas horas da noite, a remuneração recebida
por minha tarefa, e outras miudezas que agora não vem ao caso sequer recordar.
Então Farewell olhou para mim estreitando os olhos, como se de repente não me
conhecesse, ou descobrisse no meu rosto outro rosto, ou experimentasse um
amargo acesso de inveja de minha inédita situação nas esferas do poder, e me
perguntou, com uma voz que adivinhei contida, como se só fosse capaz, por
enquanto, de fazer a metade da pergunta, como era o general Pinochet. Encolhi
os ombros, como costumam fazer os personagens de romance e nunca os seres
humanos reais. Farewell disse: algo tem èe ter esse cavalheiro que o
faça excepcional. Voltei a encolher os ombros. Farewell disse: pense um pouco,
Sebastián, com o mesmo , tom de
voz que empregaria para dizer pense um
pouco, padreco de merda. Encolhi os ombros e fingi que pensava. E os olhos de
Farewell, achinesados, continuavam tentando perfurar meus olhos com uma
ferocidade senil. Lembrei-me então da primeira vez que falei com o general,
numa solidão relativa, antes da segunda ou da terceira aula, minutos antes,
quando eu estava com minha xícara de chá nos joelhos e o general, de farda,
imponente e soberano, aproximou-se de mim e perguntou se eu sabia o que Allende
lia. Pus a xícara de chá na bandeja e levantei. O general disse sente-se,
padre. Ou talvez não tenha dito nada e só tenha feito com a mão o gesto para
que me sentasse. Depois disse algo que aludia à aula iminente, algo que aludia
a um corredor de altas paredes, algo que aludia a um tropel de alunos. E eu
sorri beatificamente e assenti. Então o general me fez a pergunta, se eu sabia
o que Allende lia, se achava que Allende era um intelectual. E eu não soube,
apanhado de surpresa, o que responder, disse a Farewell. O general me disse:
todo mundo agora o apresenta como um mártir e um intelectual, porque os
mártires pura e simplesmente já não interessam muito, não é mesmo? Inclinei a
cabeça e sorri beatificamente. Mas não era um intelectual, a não ser que
existam os intelectuais que não lêem e não estudam, disse o general, o que o
senhor acha? Encolhi os ombros como um pássaro ferido. Não existem, disse o
general. Um intelectual tem de ler e estudar, ou não é um intelectual, disso
até os mais idiotas sabem. Que o senhor acha que Allende lia? Meneei
levemente a cabeca e sorri.
Revistas. Só lia revistas. Resumos de livros. Artigos que seus sequazes
recortavam. Sei de boa fonte, acredite. Eu sempre desconfiei disso, sussurrei.
Pois suas desconfianças eram completamente
fundadas. E o que o senhor acha que Frei lia? Não sei, meu general, murmurei,
já com mais confiança. Nada. Não lia nada. Não lia nem mesmo a Bíblia. Que o
senhor, como sacerdote, acha disso? Não tenho opinião definida a esse respeito,
meu general, balbuciei. Creio que um dos fundadores da Democracia Cristã pelo
menos poderia ler a Bíblia, não?, disse o general. É possível, murmurei.
Faço-lhe essa observação sem nenhuma censura, digamos que constato, é um fato,
e eu o constato, não tiro conclusões, ainda não, pelo menos, não é verdade? É
verdade, disse eu. E Alessandri? O senhor já pensou alguma vez nos livros que
Alessandri lia? Não, meu general, sussurrei sorridente. Pois lia romances de
amor! O presidente Alessandri lia romances de amor, imagine só. Que lhe parece?
Incrível, meu general. Claro que, em se tratando de Alessandri, é, digamos,
natural; não, natural não, lógico, é bastante lógico que suas leituras se
orientassem nesse sentido. Está me acompanhando? Não, não estou, meu general,
disse eu, com cara de sofrimento. Bem, o pobre Alessandri, disse o general
Pinochet, e me encarou fixamente. Ah, claro, disse eu. Agora me acompanha?
Acompanho, meu general, disse eu. O senhor se lembra de algum artigo de
Alessandri, alguma coisa que ele próprio tenha escrito, e não um dos seus
assessores? Creio que não, meu general, murmurei. Claro que não, porque ele
nunca escreveu nada. O mesmo se pode dizer de Frei e de Allende. Nem liam, nem
escreviam. Fingiam ser homens cultos,
mas nenhum dos três lia nem escrevia. Não eram homens de livros, no máximo-homens de
imprensa. De fato, meu general, visto assim, disse eu, sorrindo beatificamente.
Então o general me disse: quantos livros o senhor acha que eu escrevi? Fiquei
gelado, disse a Farewell. Não tenho a menor idéia. Três ou quatro, disse
Farewell com segurança. Em todo caso, eu não sabia. Tive de admitir. Três,
disse o general. O que acontece é que sempre publiquei por editoras pouco
conhecidas ou por editoras especializadas. Mas tome seu chá, padre, vai esfriar.
Que notícia surpreendente, que ótima notícia, disse eu. Bem, são livros
militares, de história militar, de geopolítica, assuntos que não interessam a
nenhum leigo na matéria. É fantástico, três livros, disse eu, com a voz
trêmula. E um sem-número de artigos que publiquei até em revistas americanas,
traduzidos em inglês, claro. Gostaria muito de ler um dos seus livros, meu
general, sussurrei. Vá à Biblioteca Nacional, estão todos lá. Conto fazê-lo
amanhã mesmo, sem falta, disse eu. O general pareceu não me ouvir. Ninguém me
ajudou, escrevi sozinho, três livros, um deles bem grosso, sem ajuda de
ninguém, queimando as pestanas eu mesmo. Depois disse: um sem-número de
artigos, de todo tipo, sempre, isso sim, restritos à família militar. Por um
instante ambos permanecemos em silêncio, embora o tempo todo eu assentisse com
a cabeça, como se o convidasse a continuar falando. Por que acha que lhe contei
isso? ,disse, de repente. Encolhi os ombros,
sorri beatificamente. Para desfazer qualquer equívoco, afirmou. Para que o
senhor saiba que eu me interesso pela leitura, leio livros de história, leio
livros de teoria política, leio até romances. O último foi Palomita blanca, de
Lafourcade, um romance de índole francamente juvenil, mas li porque não
desdenho estar atualizado e me agradou. O senhor leu? Sim, meu general,
respondi. E o que achou? Excelente, meu general, publiquei uma crítica sobre
ele e elogiei bastante, respondi. Bom, também não é para tanto, disse Pinochet.
E verdade, disse eu. Tornamos a ficar em silêncio. De repente o general pôs a
mão no meu joelho, disse a Farewell. Senti calafrios. Uma maré de mãos velou
por um segundo meu entendimento. Por que senhor acha que quero aprender os
rudimentos básicos do marxismo?, perguntou. Para prestar um serviço melhor à
pátria, meu general. Exatamente,
para compreender os inimigos do Chile, para saber como pensam, para imaginar
até onde estão dispostos a ir. Eu sei até onde estou disposto a ir,
garanto-lhe. Mas também quero saber até onde eles estão dispostos a ir. Além do
mais, estudar não me mete medo. Sempre é preciso estar preparado para aprender
algo de novo a cada dia. Leio e escrevo. Constantemente. Isso não é coisa que
se possa dizer de Allende, de Frei ou de Alessandri, não é mesmo? Assenti três
vezes com a cabeça. Com isso quero lhe dizer, padre, que o senhor não vai
perder seu tempo comigo e que eu não vou perder meu tempo com o senhor.
Correto? Corretíssimo, meu general, disse eu. Quando terminei de relatar essa
história, os olhos de Farewell, entrecerrados como armadilhas de urso quebradas
ou destroçadas pelo tempo, pelas chuvas, pelo frio glacial, ainda me fixavam. E
tive a impressão de que o grande crítico das letras chilenas do século XX havia morrido. Farewell, sussurrei, fiz
bem ou fiz mal? Como não obtive resposta, tornei a fazer a mesma pergunta: agi
corretamente ou me excedi? E Farewell respondeu com outra pergunta: foi uma
atuação necessária ou desnecessária? Necessária, necessária, necessária, disse
eu. Isso pareceu bastar a ele e, momentaneamente, também a mim. Depois
continuamos comendo e continuamos conversando. A certa altura da nossa conversa
eu disse a ele: nem uma palavra a ninguém do que lhe contei. Isso é ponto
pacífico, disse Farewell. Dir-se-ia que com o mesmo tom do coronel Pérez Larouche.
Um tom distinto do que haviam empregado dias antes os srs. Odem e Oidó, que
afinal de contas não eram cavalheiros. Mas na semana seguinte a história
começou a correr como rastilho de pólvora por toda Santiago. O padre Ibacache
deu aulas de marxismo à Junta. Quando soube, gelei. Vi Farewell, quero dizer, imaginei-o
com tanta clareza como se o houvesse estado vigiando, sentado em sua poltrona
favorita, ou em sua cadeira do clube, ou na sala de alguma das velhotas cuja
amizade ele cultivava havia lustros, balbuciando, meio gagá, perante um
auditório composto de generais da reserva que agora se dedicavam aos negócios,
de sodomitas vestidos à inglesa, de senhoras de sobrenomes ilustres, as quais
não demorariam a morrer, minha história como professor particular da Junta. E
esses sodomitas, e essas velhotas agonizantes, e até os generais da reserva
convertidos em conselheiros de empresas não demoraram a contá-la a outros, e
estes outros a outros, e a outros, e a outros. Claro, Farewell negou ser o
motor, ou a espoleta, ou o fósforo que dera início ao falatório, e eu não me vi
com força nem com vontade de culpá-lo. De modo que sentei diante do telefone e
esperei os telefonemas dos amigos e dos ex-amigos, os telefonemas de Oidó, Odem
e Pérez Larouche, recriminando minha indiscrição, os telefonemas anônimos dos
ressentidos, os telefonemas das autoridades eclesiásticas interessadas em saber
quanto havia de verdade e quanto de mentira no boato que corria, sem falar nos
cenáculos culturais de Santiago, mas ninguém telefonou. A princípio atribuí
esse silêncio a uma atitude de repulsa geral por minha pessoa. Depois, com
estupor, dei-me conta de que ninguém dava a mínima para a história. As figuras
hieráticas que povoavam a pátria se dirigiam, impassíveis, para um horizonte
cinzento e desconhecido em que mal se vislumbravam raios distantes, relâmpagos,
nuvens de fumaça. Que havia lá? Não sabíamos. Nenhum Sordello. Isso sim. Nenhum
Guido. Arvores verdes, não. Trotes de cavalo, não. Nenhuma discussão, nenhuma
investigação. Nós nos dirigíamos, quem sabe, para nossas almas ou para as almas
penadas dos nossos antepassados, para a planície interminável que os méritos
próprios e alheios tinham estendido diante dos nossos olhos remelentos ou
chorosos, exangues ou ultrajados. De modo que chegava até a ser natural que
ninguém desse importância para minhas aulas de introdução ao marxismo. Todos,
mais cedo ou mais tarde, iam voltar a compartilhar o poder. Direita, centro,
esquerda, todos da mesma família. Problemas éticos, alguns. Problemas
estéticos, nenhum. Hoje governa um socialista, e vivemos exatamente da mesma
maneira. Os comunistas (que vivem como se o Muro não houvesse caído), os
democratas-cristãos, os socialistas, a direita, e os militares. Ou ao
contrário. Posso dizer isso ao contrário! A ordem dos fatores não altera o
produto! Nenhum problema! Só um pouco de febre! Só três atos de loucura! Só um
surto psicótico excessivamente prolongado! Pude voltar a sair à rua, pude
voltar a telefonar para meus conhecidos, e ninguém me disse nada. Naqueles anos
de aço e silêncio, ao contrário, muitos elogiaram minha obstinação em continuar
publicando resenhas e críticas. Muitos elogiaram minha poesia! Mais de um se
aproximou de mim para me pedir um favor! E eu fui pródigo em recomendações, favores,
dados profissionais sem importância que, no entanto, os interessados me agradeciam como
se eu lhes houvesse garantido a salvação eterna! Afinal de contas, todos éramos
razoáveis (menos o jovem envelhecido, que naqueles dias sabe-se lá por onde
vagabundeava, em que buraco tinha se metido), todos éramos chilenos, todos
éramos gente comum, discreta, lógica, moderada, prudente, sensata, todos
sabíamos que era preciso fazer alguma coisa, que havia coisas que eram necessárias,
uma época de sacrifícios e outra de sadia reflexão. As vezes, à noite, com
a luz apagada, eu ficava sentado numa cadeira e me perguntava em voz baixa qual
era a diferença entre fascista e faccioso. Somente duas palavras. Nada mais que
duas palavras. Às vezes uma, porém com maior freqüência duas! Assim, saí à rua
e respirei o ar de Santiago com o vago convencimento de estar, se não no melhor
dos mundos, pelo menos num mundo possível, num mundo real, e
publiquei um livro de poemas que até a mim pareceram estranhos, quer dizer,
estranhos por terem saído da minha pena, estranhos por serem meus, mas eu os
publiquei como uma contribuição à liberdade, minha liberdade e a dos leitores,
depois voltei às minhas aulas e conferências, e publiquei outro livro na
Espanha, em Pamplona, e chegou minha hora de passear pelos aeroportos do mundo,
entre elegantes europeus e graves americanos (que, além do mais, pareciam
cansados), entre os homens mais bem-vestidos da Itália, Alemanha, França e
Inglaterra, cavalheiros que dava gosto ver, e eu passava por ali, com minha
batina esvoaçando pelo ar condicionado ou pelas portas automáticas, que se
abriam de repente, sem causa lógica, como se pressentissem a presença de Deus,
e todos diziam, ao ver minha humilde batina ao vento, ali vai o padre
Sebastián, o padre Urrutia, incansável, esse chileno resplandecente, depois
voltei ao Chile, porque sempre volto, senão não seria esse chileno
resplandecente, e continuei com minhas resenhas no jornal, com minhas
críticas que pediam aos gritos, mal o leitor distraído raspasse um pouco sua
superfície, uma atitude diferente ante a cultura, minhas críticas que pediam
aos gritos, até suplicavam, a leitura dos gregos e dos latinos, a leitura dos
provençais, a leitura do dolce stil novo, a leitura dos clássicos de
Espanha, França e Inglaterra, mais cultura!, mais cultura!, a leitura de
Whitman, de Pound e de Eliot, a leitura de Neruda, Borges e Vallejo, a leitura
de Victor Hugo, por Deus, e de Tolstoy, e me esgoelava satisfeito no deserto, e
minha grita e por vezes meus ganidos só eram audíveis para quem com a unha do
indicador fosse capaz de raspar a superfície dos meus escritos, só para estes,
que não eram muitos mas para mim eram suficientes, e a vida continuava,
continuava, continuava, como um colar de arroz em que cada grão levasse uma
paisagem pintada, grãos diminutos e paisagens microscópicas, e eu sabia que
todos punham o colar no pescoço mas ninguém tinha suficiente paciência ou força
de ânimo para tirar o colar, aproximá-lo dos olhos e decifrar grão a grão cada
paisagem, em parte porque as miniaturas exigiam olhos de lince, olhos de águia,
em parte porque as paisagens costumavam proporcionar surpresas desagradáveis,
como ataúdes, cemitérios vistos a vôo de pássaro, cidades desabitadas, o abismo
e a vertigem, a pequenez do ser e sua ridícula vontade, gente que vê televisão,
gente que assiste aos jogos de futebol, o tédio como um porta-aviões gigantesco
circunavegando o imaginário chileno. E era essa a verdade. Nós nos
entediávamos. Líamos e nos entediávamos. Nós, intelectuais. Porque não se pode
ler o dia inteiro e a noite inteira. Não se pode escrever o dia inteiro e a
noite inteira. Não éramos, não somos titãs cegos, e naqueles anos, como agora,
os escritores e artistas chilenos precisavam se unir e conversar, se possível
num lugar simpático e com pessoas inteligentes. O problema, à parte o fato
incontornável de que muitos amigos tinham ido embora do país por problemas
muitas vezes muito mais de índole pessoal que política, estava no toque de
recolher. Onde os intelectuais, os artistas, podiam se reunir, se às dez da
noite tudo fechava e a noite, como todo mundo sabe, é o momento propício para a
reunião, para as confidencias e para o diálogo entre iguais? Os artistas, os
escritores. Que época. Parece que vejo o rosto do jovem envelhecido. Não o
vejo, mas parece que o vejo. Franze o nariz, escruta o horizonte, estremece da
cabeça aos pés. Não o vejo, mas parece que o vejo acocorado ou de quatro numa
elevação, enquanto as nuvens negras passam velocíssimas por cima da sua cabeça,
a elevação então é uma pequena colina e no minuto seguinte é o átrio de uma
igreja, um átrio negro como as nuvens, carregado de eletricidade como as nuvens
e brilhante de umidade, e o jovem envelhecido estremece, torna a estremecer,
franze o nariz, depois salta sobre a história. Mas a história, a verdadeira
história, só eu conheço. Ela é simples, cruel e verdadeira, e deveria nos fazer
rir, deveria nos matai: de rir. Mas nós só sabemos chorar, a única coisa que
fazemos com convicção é chorar. Havia o toque de recolher. Os restaurantes, os
bares, fechavam cedo. As pessoas se recolhiam em horas prudentes. Não havia
muitos lugares onde os escritores e os artistas pudessem se reunir para beber e
conversar o quanto quisessem. Essa é a verdade. Assim foi, havia uma mulher. Chamava-se
Maria Canales. Era escritora, era boa moça, era jovem. Creio que tinha algum
talento. Ainda afirmo que tinha. Um talento, como dizer?, recolhido em si
mesmo, guardado em sua bainha, ensimesmado. Outros se retrataram, correram o
véu espesso e esqueceram. O jovem envelhecido, nu, salta sobre a presa. Mas eu
conheço a história de Maria Canales e sei tudo O que aconteceu. Era escritora.
Pode ser que ainda seja. Os escritores (e os críticos) não tinham muitos
lugares aonde ir. Maria Canales tinha uma casa fora da cidade. Uma casa grande,
rodeada por um jardim repleto de árvores, uma casa com urna sala confortável,
com lareira e bom uísque, bom conhaque, uma casa aberta para os amigos uma vez
por semana, duas vezes por semana, em raras ocasiões três vezes por semana. Não
sei como a conhecemos. Suponho que tenha aparecido um dia na redação de um
jornal, na redação de uma revista, na sede da Sociedade de Escritores do Chile.
É provável que tenha participado de alguma oficina literária. O fato é que em
pouco tempo todos nós a conhecíamos e ela conhecia todos nós. Era pessoa de
trato amável. Já disse que era boa moça. Tinha cabelos castanhos, olhos
grandes, e lia tudo o que lhe dissessem para ler ou era o que nos fazia crer.
Ia a exposições. Talvez a tenhamos conhecido numa exposição. Talvez na saída de
uma exposição tenha convidado um grupo a continuar a festa em sua casa. Era boa
moça, já disse. Gostava da arte, gostava de conversar com pintores, com gente
que fazia performances e vídeos artísticos, talvez porque sua cultura geral
fosse manifestamente menor que a dos escritores. Ou assim ela julgava. Depois
começou a se relacionar com os escritores e percebeu que eles também não
possuíam uma cultura muito ampla. Que alívio deve ter sentido. Que alívio mais
chileno. Neste país esquecido por Deus só uns poucos; somos realmente cultos. O resto não
sabe nada. Mas as pessoas são simpáticas e conquistam a simpatia das outras.
Maria Canales era simpática e conquistava a simpatia das pessoas: isto é, era
generosa, não parecia se preocupar com nada além do bem-estar dos seus
convidados e punha todo o seu empenho em proporcioná-lo. A verdade é que as
pessoas se sentiam bem nos serões, ou saraus, ou soirées, ou festas ilustradas
da nova escritora. Tinha dois filhos. Isso eu ainda não disse. Se bem me
lembro, tinha dois filhos pequenos, o mais velho de dois ou três anos, o menor
de uns oito meses, e era casada com um americano chamado James Thompson, o qual
Maria Canales chamava de Jimmy e era representante ou executivo de uma empresa
do seu país que pouco tempo antes havia instalado uma filial no Chile e outra
na Argentina. Claro, nós todos conhecíamos Jimmy. Eu também. Era um americano
típico, alto, cabelos castanhos, um pouco mais claros que os da mulher, não muito
falante mas educado. Às vezes participava dos saraus artísticos de Maria
Canales, e então geralmente se limitava a ouvir com paciência infinita os
convidados menos brilhantes da noite. As crianças, quando os convidados
chegavam à casa numa alegre caravana de carros de marcas variadas, costumavam
já estar em seu quarto, no segundo andar, a casa tinha três, e às vezes a
empregada ou a babá os descia no colo, vestidos de pijama, para que
cumprimentassem e suportassem as graças dos recém-chegados, que elogiavam sua
beleza infantil ou sua boa educação, ou como eram parecidos com a mãe ou com o
pai, embora a verdade fosse que o mais velho, que tinha o mesmo nome que eu,
Sebastián, não se parecia com nenhum dos seus progenitores, o que não era o
caso do menor, chamado Jimmy, que era a imagem viva de Jimmy pai, com alguns
traços nativos herdados de Maria Canales. Depois os meninos desapareciam, e
desaparecia a empregada, que se fechava no quarto contíguo ao dos meninos, e
embaixo, na ampla sala de Maria Canales, começava a festa, a anfitriã servia
uísque para todo mundo, alguém punha um disco de Debussy, um disco de Webern
gravado pela Berliner Philharmoniker, não demorava para que alguém resolvesse
recitar um poema e para que outro resolvesse comentar em voz alta as virtudes
deste ou daquele romance, discutia-se pintura e dança contemporânea,
formavam-se rodas, criticava-se a última obra de fulano, diziam-se maravilhas
da mais recente performance de beltrano, bocejava-se, às vezes se aproximava de
mim algum poeta jovem, contrário ao regime, punha-se a falar de Pound e
terminava falando do seu próprio trabalho (eu sempre estava interessado no
trabalho dos jovens, não importava a orientação política que tivessem), a
anfitriã aparecia de repente com uma bandeja cheia de empanadas, alguém se
punha a chorar, outros cantavam, às seis da manhã, ou às sete, quando já havia
terminado o toque de recolher, todos voltávamos numa fila indiana cambaleante
para nossos carros, alguns abraçados, outros meio adormecidos, a maioria feliz,
então os motores de seis ou sete carros aturdiam a manhã e emudeciam por uns
segundos o canto dos passarinhos no jardim, e a anfitriã nos dava adeus do
alpendre, acenando a mão, os carros começavam a sair do jardim, um de nós havia
previamente se encarregado de abrir o portão de ferro, e Maria Canales
continuava em pé na entrada até o último carro transpor os limites da sua casa,
os limites do seu castelo hospitaleiro, e os carros enfiavam por aquelas
avenidas desertas dos arredores de Santiago, aquelas avenidas intermináveis de
cujos lados se erguiam casas solitárias, vilas abandonadas ou malcuidadas por
seus proprietários, e terrenos baldios que se duplicavam naquele horizonte
interminável, enquanto o sol aparecia na cordilheira e do núcleo urbano da cidade
nos chegava o eco dissonante de um novo dia. Passada uma semana lá estávamos de
novo. E maneira de dizer. Eu não ia toda semana. Eu aparecia na casa de Maria
Canales uma vez por mês. Talvez menos. Mas havia escritores que iam toda
semana. Ou mais! Agora todos negam. Agora é capaz que digam que eu é que ia
toda semana. Que eu é que ia mais de uma vez por semana! Mas até o jovem
envelhecido sabe que isso é uma falácia. De modo que isso está descartado. Eu
ia pouco. No pior dos casos eu não ia muito. Mas, quando ia, mantinha os olhos
abertos e o uísque não turvava meu entendimento. Prestava atenção nas coisas.
Prestava atenção, por exemplo, no menino Sebastián, meu pequeno xará, e em sua
carinha magra. Uma vez a empregada desceu com ele, eu o tirei dos seus braços e
perguntei ao menino o que estava acontecendo. A empregada, uma mapuche de pura
cepa, encarou-me fixamente e fez menção de tomá-lo de mim. Não deixei. Que foi,
Sebastián?, perguntei, com uma ternura que eu desconhecia até então. O menino
me contemplou com seus grandes olhos azuis. Pus a mão no rosto dele. Que
carinha fria. Logo senti meus olhos se encherem de lágrimas. Então a empregada
o arrancou de mim com um gesto carregado de rispidez. Quis lhe dizer que era
sacerdote. Alguma coisa, talvez o senso do ridículo, impediu-me. Quando voltou
a subir a escada, o menino olhou para mim por cima do ombro da empregada que o
carregava nos braços e tive a impressão de que aqueles "filhos grandes
viam o que não queriam ver. Maria Canales se sentia muito orgulhosa dele:
elogiava sua inteligência. Do menor, elogiava a intrepidez e a ousadia. Eu mal
a ouvia: todas as mães dizem as mesmas bobagens. Na realidade, falava com os
artistas promissores, com os que estavam dispostos a criar do nada (ou de umas
leituras secretas) a nova cena chilena, um anglicismo um tanto descabido para
designar o vazio deixado pelos emigrantes, o qual eles pensavam ocupar e povoar
de suas obras então engatinhando. Conversava com eles e com os velhos amigos de
sempre, que de forma irregular (como eu) apareciam na casa dos arredores de
Santiago para falar da poesia metafísica inglesa ou para comentar os últimos
filmes vistos em Nova York. Com Maria Canales, mal tive duas conversas, sempre
informais, e certa vez li um conto dela, um conto que depois ganharia o
primeiro prêmio num concurso organizado por uma revista literária de matiz
esquerdista. Lembro-me desse concurso. Não fui jurado. Nem me pediram que
fosse. Se houvessem me pedido, teria sido. Literatura é literatura. Mas o fato
é que hão fui jurado. Se tivesse sido, talvez não houvesse dado o primeiro
prêmio a Maria Canales. O conto não era ruim, mas estava longa de ser bom. Era
de uma mediania voluntariosa, como sua autora. Quando o mostrei a Farewell, que
naquela época ainda vivia mas nunca fora a um sarau literário na casa de Maria
Canales, mesmo porque Farewell quase já não saía de casa e mal conversava, ou
só conversava com suas amigas velhotas, ele me disse, depois de ler umas poucas
linhas, que se tratava de um texto horroroso, indigno até de ganhar um prêmio
na Bolívia, depois se lamentou amargamente do estado da literatura chilena, em
que já não havia figuras da estatura de Rafael Maluenda, Juan de Armaza ou
Guillermo Labarca Hubertson. Farewell estava sentado em sua poltrona, e eu
estava sentado diante dele, na poltrona dos amigos íntimos. Lembro que fechei
os olhos e baixei a cabeça. Quem se lembra hoje em dia de Juan de Armaza?,
pensei, enquanto entardecia com um ruído de serpentes. Só Farewell e alguma
velhota de boa memória. Algum professor de literatura perdido no Sul. Algum
neto aloprado, desequilibrado, num passado perfeito e inexistente. Não temos
nada, murmurei. Que disse?, indagou Farewell. Nada, disse eu. Sente-se bem?,
perguntou Farewell. Muito bem, disse eu. Depois disse ou pensei: duas
conversas. E isso eu disse ou pensei na casa de Farewell, que ruía com ele, ou
na minha cela mona-cal. Porque só tinha tido duas conversas com Maria Canales.
Em seus saraus eu costumava sentar num canto, junto de uma grande janela e de
uma mesa em que sempre havia um vaso de cerâmica com flores frescas, perto da
escada, e desse canto não me mexia, nesse canto conversava com o poeta
desesperado, com a romancista feminista, com o pintor de vanguarda, um olho
fixo na escada, atento à descida ritual da mapuche e do menino Sebastián. As
vezes Maria Canales entrava na minha roda. Sempre simpática! Sempre disposta a
satisfazer meus mais ínfimos desejos! Mas creio que ela mal compreendia minhas
palavras, meu discurso. Fingia que compreendia, mas como ia compreender.
Tampouco entendia as palavras do poeta desesperado, mas entendia, um pouco
mais, as inquietudes da romancista feminista e se entusiasmava com os projetos
do pintor, de vanguarda. Mas em linhas gerais só ouvia. Digo: quando entrava em
meu canto, em minha panelinha blindada. Nos outros ambientes daquela sala
enorme era ela que costumava se fazer ouvir. E, quando se falava de política,
sua segurança era inflexível, sua voz, bem timbrada, não vacilava na hora de
adjetivar. Nem por isso, porém, deixava de ser uma anfitriã perfeita: sabia
diluir com uma boa talla, esse gracejo tão chileno, as convicções
encontradas. Uma vez se aproximou de mim (eu estava sozinho, com um copo de
uísque na mão, pensando no pequeno Sebastián e em sua carinha perplexa) e sem
maiores preâmbulos exprimiu sua admiração pela romancista feminista. Quem me
dera escrever como ela, disse. Respondi-lhe com franqueza: muitas das páginas
da romancista eram traduções ruins (para não chamá-las de plágio, que sempre
foi uma palavra dura, quando não injusta) de algumas romancistas francesas da
década de 50. Observei seu rosto. Era, sem sombra de dúvida, uma cara esperta.
Fitou-me sem nenhuma expressão e depois, pouco a pouco, de forma quase
imperceptível, formou um sorriso ou o âmago incontível de um sorriso no rosto.
Ninguém teria dito que ela sorria, mas sou sacerdote católico e percebi na
hora. A natureza do sorriso já era mais difícil de discernir. Talvez fosse um
sorriso de satisfação, mas satisfação com quê?, talvez fosse um sorriso de
reconhecimento, quer dizer, em minha resposta tinha visto meu rosto e
agora sabia (ou julgava saber, a espertinha) quem eu era, talvez fosse
tão-só o sorriso do vazio, o sorriso que se cria misteriosamente no vazio e se
dissolve no vazio. Ou seja, o senhor não gosta do que ela escreve, disse-me. O
sorriso desapareceu, e seu rosto recobrou uma expressão neutra. Claro que
gosto, respondi, só que constato criticamente seus defeitos. Que frase mais
absurda. Isso é o que penso agora, enquanto jazo prostrado na cama e meu pobre
esqueleto se apóia integralmente no cotovelo. Que frase mais circunstancial,
que frase mal construída, que frase mais idiota. Todos temos defeitos, disse
eu. Que horror. Só os gênios podem apresentar obras impolutas. Que aberração.
Meu cotovelo treme. Minha cama treme. Tremem os lençóis e o cobertor. Onde está
o jovem envelhecido? Não lhe faz rir ouvir a história das minhas gafes? Não se
ri às bandeiras despregadas dos meus disparates, dos meus erros veniais ou
mortais? Ou ter-se-á entediado e já não está junto da minha cama de bronze, que
gira num simulacro de Sordel, Sordello, que Sordello? Faça o que quiser. Eu
disse: todos nós temos defeitos, mas é preciso enxergar as virtudes. Eu disse:
todos nós somos, afinal de contas, escritores, e nosso caminho é longo e
pedregoso. E Maria Canales, do fundo da sua cara de boba sofredora, fitou-me
como se me julgasse severamente, depois disse: que coisa bonita o senhor disse,
padre. E eu olhei surpreso para ela, em parte porque até aquele momento ela
sempre tinha me chamado de Sebastián, como todos os meus amigos escritores, em
parte porque naquele mesmo instante a mapuche começou a descer a escada com os
dois meninos nos braços. E essa aparição dupla, a da mapuche e do pequeno
Sebastián, de um lado, e a do rosto de Maria Canales, da atitude de Maria
Canales me chamando de padre, como se de repente abandonasse um papel agradável
mas banal e assumisse outro, muito mais arriscado, o papel do penitente ou,
nesse caso, da penitente, conseguiu por uns segundos que eu baixasse a guarda,
como se diz nos ambientes pugilísticos (suponho), conseguiu que eu penetrasse
por alguns segundos em algo que se assemelhava ao mistério gozoso, esse
mistério de que todos participamos e todos bebemos, o qual, no entanto, é
indefinível, incomunicável, imperceptível e me provocou uma sensação de enjôo,
uma náusea que se acumulava no peito e podia facilmente ser confundida com as
lágrimas, transpiração, taquicardia, náusea que, depois de abandonar a
hospitaleira casa da nossa anfitriã, atribuí à visão daquele menino, meu
pequeno homônimo, que olhava sem ver enquanto era transportado nos braços da
sua horrível babá, os lábios selados, os olhos selados, todo o seu corpinho
inocente selado, como se não quisesse ver, nem ouvir, nem falar no meio da
festa semanal da sua mãe, diante da alegre e despreocupada turminha de
literatos que sua mãe reunia toda semana. Depois não sei o que aconteceu. Não
desmaiei. Disso tenho certeza. Tomei, quem sabe, a firme decisão de nunca mais
participar dos saraus de Maria Canales. Falei com Farewell. Como Farewell
estava longe de tudo. Ás vezes falava de Pablo, e você tinha a impressão de que
Neruda estava vivo. Às vezes falava de Augusto, Augusto pra cá, Augusto pra lá,
e você levava horas, se não dias, para compreender que se referia a Augusto
d'Halmar. A verdade é que já não se podia conversar com Farewell. Às vezes eu
ficava olhando para ele e pensava: velho futriqueiro, alcagüete, velho bêbado,
assim passa a glória do mundo. Mas depois levantava e ia pegar as coisas que me
pedia, bibelôs, estatuetas de prata ou de ferro, velhos livros de Blest-Gana ou
de Luis Orrego Luco, que ele se limitava a acariciar. Onde está a literatura?,
eu perguntava a mim mesmo. Terá razão o jovem envelhecido? Afinal terá razão?
Escrevi ou tentei escrever um poema. Num dos versos aparecia um menino de olhos
azuis olhando através dos vidros de uma janela. Que horror, que ridículo.
Depois voltei a casa de Maria Canales. Tudo continuava igual. Os artistas riam,
bebiam, dançavam, enquanto lá fora, naquela zona de grandes avenidas despovoadas
de Santiago, transcorria o toque de recolher, Eu não bebia, não dançava, apenas
sorria beatificamente. E pensava. Pensava que era curioso que nunca aparecesse
uma patrulha dos carabineiros ou da polícia militar, apesar do burburinho e das
luzes da casa. Pensava em Maria Canales, que então já tinha ganho um prêmio com
um conto um tanto medíocre. Pensava em Jimmy Thompson, o marido, que às vezes
se ausentava por várias semanas, meses até. E pensava nos meninos, sobretudo no
meu pequeno xará, que crescia quase sem querer. Uma noite sonhei com padre
Antônio, o pároco daquela igreja de Burgos que tinha morrido amaldiçoando a
arte da falcoaria. Eu estava na minha casa de Santiago, e padre Antônio
aparecia vivinho, vestindo uma batina sebenta, cheia de cerzidos e remendos, e,
sem pronunciar uma palavra, com a mão me indicava que o seguisse. Eu assim
fazia. Saíamos a um pátio calçado de pedras, iluminado pela lua. No centro do
pátio havia uma, árvore, de espécie indiscernível, sem folhas. Padre Antônio,
dos pórticos que rodeavam o pátio, apontava para ela peremptoriamente. Pobre
padrezinho, como está velho, pensava eu, no entanto olhava com atenção para
aquela árvore, como ele queria, e via um falcão pousado num dos seus galhos.
Mas é o Rodrigo!, exclamava eu. O velho Rodrigo, que bom vê-lo, galhardo e
orgulhoso, elegantemente agarrado num galho, iluminado pelos raios de Selene,
majestoso e solitário. E então, enquanto eu admirava o falcão, padre Antônio me
puxava pela manga e, ao me virar para ele, eu notava que estava com os olhos
arregalados, suava em bicas, suas bochechas e seu queixo tremiam. E, quando ele
olhava para mim, eu percebia que grossas lágrimas escorriam dos seus olhos,
grossas como pérolas turvas em que se refletiam os raios de Selene, depois o
dedo descarnado de padre Antônio apontava para os pórticos e arcos da outra
extremidade, depois apontava para a lua ou para o luar, depois apontava para a
noite sem estrelas, depois apontava para a árvore que se erguia no meio daquele
pátio descomunal, depois apontava para seu falcão, Rodrigo, e fazia tudo isso
com certo método mas sem deixar de tremer. E eu afagava suas costas, costas em
que havia surgido uma pequena corcunda, as quais, porém, mesmo assim
continuavam sendo belas costas, como as de um campônio adolescente ou como as
de um atleta principiante, e tentava acalmá-lo, mas dos meus lábios não saía
nenhum som, então padre Antônio se punha a chorar desconsoladamente, tão
desconsoladamente que entrava um sopro de ar frio no meu corpo e um medo
inexplicável na minha alma, o pedacinho de homem que era padre Antônio chorava
não só com os olhos mas também com a fronte, com as mãos e com os pés, a cabeça
dobrada, um trapo líquido atrás do qual se adivinhava a pele extremamente lisa,
e então, virando o rosto para cima, para meus olhos, perguntava com grande
esforço se eu não notava. Notava o quê?, pensava eu, enquanto padre Antônio se
derretia. É a árvore de Judas, soluçava o padre burgalês. Sua afirmação não
admitia dúvidas nem equívocos. A árvore de Judas! Nesse momento achei que eu ia
morrer. Tudo parou. Rodrigo continuava pousado no galho. O pátio, ou a praça,
calçado de pedras continuava iluminado pelos raios de Selene. Tudo parou. Então
comecei a caminhar para a árvore de Judas. No início tentei rezar, mas tinha
esquecido todas as orações. Caminhei. Meus passos mal ecoaram sob a noite
imensa. Quando cheguei suficientemente perto, virei-me e quis dizer alguma
coisa a padre Antônio, mas este já não estava em lugar nenhum. Padre Antônio
morreu, disse comigo mesmo, agora está no céu ou no inferno. Mais
provavelmente: no cemitério de Burgos. Caminhei. O falcão mexeu a cabeça. Um
dos seus olhos me observou. Caminhei. Estou sonhando, pensei. Estou dormindo na
minha cama, na minha casa, em Santiago. Esse pátio, ou essa praça, parece
italiano, e não estou na Itália mas no Chile, pensei. O falcão mexeu a cabeça.
Seu outro olho me observou. Caminhei. Já estava ao lado da árvore. Rodrigo
pareceu me reconhecer. Levantei uma das mãos. Os galhos desfolhados da árvore
pareciam de pedra ou de cartão-pedra. Levantei uma das mãos e toquei num galho.
Nesse momento o falcão levantou vôo, e eu fiquei sozinho. Estou perdido,
gritei. Estou morto. Naquela manhã, depois de acordar, de vez em quando me
pegava cantarolando: a árvore de Judas, a árvore de Judas, durante as aulas,
enquanto passeava pelo jardim, ao fazer uma pausa na leitura diária para
preparar uma xícara de chá. A árvore de Judas, a árvore de Judas. Uma tarde, enquanto
ia cantarolando, tive um lampejo: o Chile inteiro tinha se transformado na
árvore de Judas, uma árvore sem folhas, aparentemente morta mas ainda bem
enraizada na terra negra, nossa fértil terra negra, onde as minhocas medem
quarenta centímetros. Depois voltei a visitar a casa de Maria Canales, que
estava escrevendo um romance, situação portentosa, e creio que houve um
mal-entendido entre eles, não sei, perguntei-lhe de supetão por seu filho, por
seu marido, disse-lhe que o importante era a vida, não a literatura, e ela me
olhou nos olhos com sua cara bovina e respondeu que já sabia, que sempre
soubera. Minha autoridade se desfez como uma bolha de sabão, e a autoridade
dela (sua soberania) cresceu até uma altura inimaginável. Enjoado, recolhi-me em
minha poltrona costumeira e driblei o temporal o melhor que pude. Não voltei
mais a participar de nenhum dos seus saraus. Meses depois, um amigo me contou
que durante uma festa na casa de Maria Canales um dos convidados tinha se
perdido. Estava muito bêbado, ou estava muito bêbada, pois não ficou claro seu
sexo, e saiu à procura do banheiro ou do water, como também dizem alguns
dos meus desditosos compatriotas. Talvez quisesse vomitar, talvez só quisesse
fazer suas necessidades ou molhar um pouco o rosto, mas o álcool contribuiu
para que se perdesse. Em vez de pegar o corredor da direita, pegou o da
esquerda, depois se meteu por outro corredor, desceu uma escada, estava no
porão e não percebeu, a casa, é verdade, era muito grande: um jogo de palavras
cruzadas. O fato é que andou por diversos corredores, abriu portas, encontrou
muitos quartos vazios ou ocupados por caixas de embalagem ou por grandes teias
de aranha, que a mapuche não se dava nunca o trabalho de limpar. Finalmente
chegou a um corredor mais estreito que todos os outros e abriu uma última
porta. Viu uma espécie de cama metálica. Acendeu a luz. Sobre a cama havia um
homem nu, amarrado pelos pulsos e tornozelos. Parecia dormir, mas essa
observação é difícil de verificar, pois uma venda lhe cobria os olhos. O
extraviado ou a extraviada, sumida instantaneamente a bebedeira, fechou a porta
e tornou em silêncio sobre seus passos. Quando chegou à sala, pediu um uísque,
depois outro, e não disse nada. Mais tarde, quanto mais tarde?, não sei, contou
a um amigo, e este contou ao meu amigo, que muito mais tarde me contou. Sua
consciência o mortificava. Tranqüilize-se, disse-lhe. Depois soube, por outro
amigo, que quem tinha se perdido era um autor de teatro ou talvez um ator e que
percorrera os infinitos corredores da casa de Maria Canales e Jimmy Thompson
até a saciedade, até chegar àquela porta no fim do corredor fracamente
iluminado, abrira a porta e dera de cara com aquele corpo amarrado numa cama
metálica, abandonado naquele porão, mas vivo, e o dramaturgo ou ator havia
fechado a porta silenciosamente, procurando não acordar o pobre homem, que
reparava no sono sua dor, havia tornado sobre seus passos, voltado para a festa
ou tertúlia literária, para a soirée de Maria Canales, e não tinha dito nada.
Também soube, anos depois, enquanto observava as nuvens se esfarelando e se
fragmentando e explodindo nos céus do Chile como jamais fariam as nuvens de
Baudelaire, que o sujeito que se perdeu pelos corredores traiçoeiros da casa
nos confins de Santiago foi um teórico da cena de vanguarda, um teórico com
grande senso de humor, que, ao se perder, não se intimidou, pois ao seu senso
de humor acrescentava uma curiosidade natural, e, quando se viu perdido no
porão de Maria Canales e se conscientizou disso, não teve medo, ao contrário,
viu despertar seu espírito trocista, abriu portas, pôs-se até a assobiar, e
finalmente chegou ao último quarto no corredor mais estreito do porão, o único
que estava iluminado por uma lâmpada fraca, abriu a porta e viu o homem
amarrado numa cama metálica, de olhos vendados, e soube que o homem estava vivo
porque o ouviu respirar, embora seu estado físico não fosse bom, pois, apesar
da luz deficiente, viu suas feridas, suas supurações, como eczemas, mas não
eram eczemas, as partes maltratadas da sua anatomia, as partes inchadas, como
se tivesse mais de um osso quebrado, mas respirava, de maneira nenhuma parecia
alguém a ponto de morrer, e depois o teórico da cena de vanguarda fechou
delicadamente a porta, sem fazer barulho, e começou a procurar o caminho de
volta à sala, apagando às suas costas as luzes que tinha acendido. Meses
depois, talvez anos depois, outro habitue dos saraus me contou a mesma
história. Depois outro, depois outro, e mais outro. Depois chegou a democracia,
o momento em que todos os chilenos deviam se reconciliar entre si, e então se
ficou sabendo que Jimmy Thompson havia sido um dos principais agentes da
DINA.e. que usava sua casa como centro de interrogatórios. Os subversivos
passavam pelos porões de Jimmy, onde este os interrogava e extraía deles toda a
informação possível, depois os mandava para outros centros de detenção. Na sua
casa, em regra, não se matava ninguém. Só se interrogava, se bem que alguns
tenham morrido. Ficou-se sabendo também que Jimmy tinha viajado para Washington
e matado um ex-ministro de Allende, e de passagem uma americana. E que havia
preparado atentados na Argentina contra exilados, chilenos e até um ou outro
atentado na Europa, terra civilizada que Jimmy tinha sobrevoado com a timidez
própria dos nascidos na América. Isso foi o que se ficou sabendo. Maria
Canales, claro, sabia desde muito antes. Mas ela queria ser escritora, e os
escritores necessitam da proximidade física de outros escritores., Jimmy amava
sua mulher. Maria Canales amava seu gringo. Tinham filhos lindos. O pequeno
Sebastián não amava seus pais. Mas eram seus pais! A mapuche, da sua maneira
obscura, gostava de Maria Canales e, provavelmente, também do patrão. Os
empregados de Jimmy não gostavam de Jimmy, mas provavelmente também tinham
família, que amavam da sua maneira obscura. Eu me fiz a seguinte pergunta: por
que Maria Canales, sabendo o que o marido fazia no porão, levava convidados
para casa? A resposta era simples: porque durante as soirées, em regra, não
havia hóspedes no porão. Eu me fiz a seguinte pergunta: por que naquela noite
um dos convidados, ao se perder, encontrou aquele pobre homem? A resposta era
simples: porque o costume leva a relaxar toda precaução, porque a rotina matiza
todo horror. Eu me fiz a seguinte pergunta: por que, na hora, ninguém disse
nada? A resposta era simples: porque ficou com medo, porque ficaram com medo.
Eu não fiquei com medo. Eu poderia ter dito algo, mas não vi nada, não soube de
nada antes que fosse tarde demais. Para que revirar o que o tempo piedosamente
oculta? Mais tarde prenderam Jimmy nos Estados Unidos. Ele falou. Sua
declaração incriminou vários generais do Chile. Tiraram-no da prisão e o
puseram num programa de proteção especial a testemunhas. Como se os generais do
Chile fossem chefões da Máfia! Como se os generais do Chile pudessem estender
seus tentáculos até os pequenos povoados do Meio-Oeste americano para calar as
testemunhas incômodas! Maria Canales ficou sozinha. Todos os seus amigos, todos
os que tinham freqüentado com prazer seus saraus literários, deram-lhe as
costas. Uma tarde fui visitá-la. Já não havia toque de recolher, e era estranho
dirigir um carro por aquelas avenidas dos arredores que pouco a pouco estavam
se modificando. A casa já não parecia a mesma: todo o seu esplendor, um
esplendor noturno e impune, desaparecera. Agora era só uma casa grande demais,
com um jardim malcuidado em que as ervas daninhas cresciam sem controle,
vertiginosamente, trepando pelas grades como se quisessem ocultar ao passeador
ocasional a visão do interior daquela casa marcada. Estacionei junto do portão
e fiquei um instante espiando da rua. Os vidros estavam sujos, as cortinas,
cerradas. Uma bicicleta de criança, de cor vermelha, estava jogada perto da
escada de acesso ao alpendre. Toquei a campainha. Instantes depois a porta se
abriu. Maria Canales mostrou metade do corpo e perguntou o que eu desejava. Não
tinha me reconhecido. O senhor é jornalista?, perguntou. Sou o padre Ibacache,
disse. Sebastián Urrutia Lacroix. Por uns segundos pareceu retroceder no tempo,
depois sorriu, saiu da casa, percorreu o trecho de jardim que a separava de mim
e abriu o portão. O senhor é a última pessoa que eu esperava, disse. Seu
sorriso não era muito diferente daquele que eu recordava. Passaram-se muitos anos,
disse ela, como se lesse meu pensamento, mas é como se fosse ontem. Entramos na
casa. Já não havia tantos móveis como antes, e a decrepitude do jardim tinha
seu correlato nos cômodos, que eu lembrava luminosos e agora pareciam banhados
de uma poeira avermelhada, suspensos num tempo diacrônico em que se sucediam
cenas incompreensíveis, tristes, distantes. Minha poltrona, a poltrona onde eu
costumava sentar, ainda estava lá. Maria Canales seguiu a direção dos meus
olhos e entendeu. Sente-se, padre, disse, sinta-se em casa. Sem dizer nada,
tomei assento. Perguntei-lhe pelos filhos. Disse-me que estavam passando uns
dias com uns parentes. De saúde estão bem?, perguntei. Muito bem. Sebastián
tinha crescido muito, se eu o visse, não reconheceria. Perguntei-lhe pelo
marido. Nos Estados Unidos, disse. Agora vive nos Estados Unidos, disse. E como
vai?, perguntei. Suponho que bem. Com um gesto que denotava em iguais
proporções cansaço e fastio, aproximou uma cadeira da minha poltrona e sentou,
contemplando o jardim através dos vidros sujos. Estava mais gorda que antes. E
se vestia pior que antes. Perguntei-lhe pela sua vida. Respondeu que todo mundo
conhecia sua vida, depois riu com uma vulgaridade em que julguei perceber
também umas gotas de desafio que me fizeram estremecer. Já não tinha amigos,
nem dinheiro, o marido tinha se esquecido dela e dos fdhos, todo mundo havia
lhe dado as costas, mas ela continuava ali e se dava ao luxo de rir em voz
alta. Perguntei pela empregada mapuche. Voltou para o Sul, disse com voz
ausente. E seu romance, Maria, terminou-o?, sussurrei. Ainda não, padre, disse,
baixando a voz como eu. Apoiei a mandíbula numa das mãos e refleti por um
instante. Procurei pensar com clareza, mas não consegui. Enquanto estive assim,
ouvi-a falar de jornalistas, a maioria estrangeiros, que às vezes iam
visitá-la. Quero falar de literatura, disse, mas eles sempre puxam o assunto da
política, do trabalho de Jimmy, do que eu sentia, do porão. Fechei os olhos.
Perdoe-a, implorei mentalmente, perdoe-a. Às vezes, poucas, vêm alguns
chilenos, alguns argentinos. Agora cobro pelas entrevistas. Ou pagam, ou não
falo. E não digo a ninguém, nem por todo o ouro do mundo, quem vinha aos meus
saraus artísticos. Juro. A senhora sabia tudo o que Jimmy fazia? Sim, padre. E
se arrepende? Como todos, padre. Senti falta de ar. Levantei e abri uma janela.
Os punhos do meu casaco ficaram manchados de poeira. Depois ela me contou uma
história sobre a casa. O terreno, ao que parece, não era seu, e os
proprietários legítimos, uns judeus que estiveram exilados por mais de vinte
anos, moviam uma ação contra ela. Como não tinha dinheiro para contratar bons
advogados, estava certa da derrota. O projeto dos judeus era derrubar tudo e
construir algo novo. Da minha casa, disse Maria Canales, não restará nenhuma
lembrança. Fitei-a com tristeza e disse que talvez fosse melhor assim, que ela
ainda era moça, que não estava envolvida judicialmente em nenhum processo, que
começasse de novo, com os filhos, em algum outro lugar. E minha carreira literária?,
perguntou, com uma expressão desafiadora. Use um nom de plume, um
pseudônimo, um apelido, pelo amor de Cristo. Olhou para mim como se eu a
houvesse insultado, depois sorriu: quer ver o porão?, perguntou. Eu a teria
esbofeteado ali mesmo, em vez disso, sentei-me e neguei várias vezes com a
cabeça. Fechei os olhos. Dentro de alguns meses já não será possível, disse-me.
Pelo tom da sua voz, por sua respiração quente, soube que tinha aproximado
excessivamente seu rosto do meu. Tornei a negar com a cabeça. Vão pôr a casa
abaixo. Vão demolir o porão. Aqui um empregado de Jimmy matou o funcionário
espanhol da Unesco. Aqui Jimmy matou Cecilia Sánchez Poblete. Às vezes eu
estava vendo televisão com os meninos, e faltava luz um instante. Não ouvíamos
nenhum grito, só faltava eletricidade de repente e depois voltava. Quer ir ver
o porão? Levantei, dei uns passos pela sala onde antes se reuniam os escritores
da minha pátria, os artistas, os trabalhadores da cultura, e fiz que não com a
cabeça. Vou embora, Maria, tenho de ir, disse. Ela riu com uma força incontida.
Mas talvez tenha sido apenas imaginação minha. Quando estávamos no alpendre
(começava lentamente a anoitecer), pegou minha mão, como se de repente sentisse
medo de ficar sozinha naquela casa condenada. Apertei sua mão e sugeri que
rezasse. Sentia-me muito cansado, e minhas palavras foram ditas sem convicção.
Não posso rezar mais do que já rezo, respondeu. Tente, Maria, tente, faça isso
por seus filhos. Ela respirou o ar dos arredores de Santiago, aquele ar que era
a quintessência do crepúsculo. Depois olhou em torno, tranqüila, serena,
corajosa a seu modo, e viu sua casa, seu alpendre, o lugar onde antes os carros
estacionavam, a bicicleta vermelha, as árvores, o caminho de terra, as grades,
as janelas fechadas, menos a que eu havia aberto, as estrelas cintilando lá
longe, e disse que era assim que se fazia literatura no Chile. Inclinei a
cabeça e fui embora. Enquanto dirigia, de volta para Santiago, pensei nas
palavras dela. É assim que se faz literatura no Chile, mas não só no Chile,
também na Argentina e no México, na Guatemala e no Uruguai, e na Espanha, na
França e na Alemanha, e na verde Inglaterra, e na alegre Itália. Assim se faz
literatura. Ou o que nós, para não cair na sarjeta, chamamos literatura. Depois
voltei a cantarolar: a árvore de Judas, a árvore de Judas, e meu carro entrou
outra vez no túnel do tempo, na grande máquina de moer carne do tempo. E me
lembrei do dia em que Farewell morreu. Teve um enterro limpo e discreto, como
havia desejado. Quando fiquei sozinho na casa dele, sozinho diante da
biblioteca de Farewell, que de alguma maneira misteriosa encarnava a ausência e
a presença de Farewell, perguntei ao seu espírito (era uma pergunta retórica,
claro) por que havia acontecido conosco o que afinal havia acontecido. Não tive
resposta. Aproximei-me de uma das enormes estantes e toquei com a ponta dos
dedos nas lombadas dos livros. Alguém se mexeu num canto. Dei um salto. Ao me
aproximar, notei que era uma das velhotas amigas dele, que tinha ficado ali,
adormecida. Saímos da casa de braço dado. Durante o enterro, enquanto
percorríamos ruas que eram como geladeiras, perguntei onde estava Farewell. No
caixão, responderam uns rapazes que iam à frente. Imbecis, disse, mas os
rapazes não estavam mais lá, tinham desaparecido. Agora o doente sou eu. Minha
cama gira num rio de águas rápidas. Se as águas fossem turbulentas, eu saberia
que a morte está próxima. Mas as águas são apenas rápidas, de modo que ainda
abrigo alguma esperança. F^z muito tempo que o jovem envelhecido guarda
silêncio. Já não desanca nem a mim nem aos escritores. Será que isso tem
solução? Assim se faz literatura no Chile, assim se faz a grande literatura do
Ocidente. Meta isso na cabeça, digo-lhe. O jovem envelhecido, o que resta dele,
mexe os lábios, formulando um não inaudível. Minha força mental o
deteve. Ou talvez tenha sido a história. Pouco pode você sozinho contra a
historia. O jovem envelhecido sempre esteve sozinho, e eu sempre estive com a
história. Apóio-me no cotovelo e o procuro. Só vejo meus livros, as paredes do
meu quarto, uma janela em meio à penumbra e à claridade. Agora poderia levantar
outra vez e reiniciar minha vida, minhas aulas, minhas resenhas críticas.
Gostaria de comentar um livro da nova literatura francesa. Mas me falta força.
Será que isso tem solução? Um dia, depois da morte de Farewell, fui à sua
fazenda, a velha Là-Bas, em companhia de uns amigos, numa espécie de viagem
sentimental da qual me apartei mal chegamos. Pus-me a caminhar pelos campos que
havia percorrido na juventude. Procurei os camponeses, mas os galpões em que
viviam estavam vazios. Uma velha atendia os amigos que iam comigo. Observei-a
de longe e, quando se dirigiu à cozinha, fui atrás dela e a cumprimentei de
fora, do outro lado da janela. Ela nem sequer olhou para mim. Depois soube que
estava meio surda, mas o fato é que nem sequer olhou para mim. Será que isso tem solução? Um dia, mais para matar
o tédio do que por qualquer outra razão, perguntei a um jovem romancista de
esquerda se sabia de Maria Canales. O jovem disse que nunca a conhecera. Mas se
você foi algumas vezes à casa dela, disse-lhe. Ele negou com a cabeça repetidas
vezes e, ato contínuo, mudou de assunto. Será que isso tem solução? As vezes
cruzo com camponeses que falam em outra língua. Paro-os. Pergunto-lhes coisas
do campo. Eles dizem que não trabalham no campo. Dizem que são operários, de
Santiago ou dos arredores de Santiago, e que nunca trabalharam no campo. Será
que isso tem solução? Às vezes a terra treme. O epicentro do terremoto está no
Norte ou está no Sul, mas eu escuto como a terra treme. As vezes fico enjoado.
Às vezes o tremor dura mais que o normal, e as pessoas se metem debaixo das
portas ou debaixo das escadas, ou saem correndo para a rua. Será que isso tem
solução? Vejo as pessoas correndo pelas ruas. Vejo as pessoas entrando no metrô
e nos cinemas. Vejo as pessoas comprando jornal. E às vezes treme, e tudo fica
parado por um instante. Então me pergunto: onde está o jovem envelhecido?, por
que foi embora?, e pouco a pouco a verdade começa a ascender como um cadáver.
Um cadáver que sobe do fundo do mar ou do fundo de um barranco. Vejo sua sombra
subindo. Sua sombra vacilante. Sua sombra subindo como se galgasse a colina de
um planeta fossilizado. E então, na penumbra da minha enfermidade, vejo seu
rosto feroz, seu doce rosto, e me
pergunto: sou eu o jovem envelhecido? E esse o verdadeiro, o grande terror, ser
eu o jovem envelhecido que grita sem que ninguém o ouça? E que o pobre jovem
envelhecido seja eu? E então passam a uma velocidade de vertigem os rostos que
admirei, os rostos que amei, odiei, invejei, desprezei. Os rostos que protegi,
os que ataquei, os rostos de que me defendi, os que busquei em vão.
E
depois se desencadeia a tormenta de merda.
Fim
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para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefício de sua leitura
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para ler. Dessa forma, a venda deste e-book ou até mesmo a sua troca por
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livro livremente.
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adquirir o original, pois assim você estará incentivando o autor e a publicação
de novas obras.
[1] O
lanche da tarde, verdadeira instituição chilena. (N. T.)
[2] Espécie
de amêijoa, típica dos mares do Chile e do Peru. (N. T.)
Noturno do Chile
Para
Carolina López e Lautaro Bolano
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